A floresta sussurrava ao redor do acampamento, sua escuridão espessa envolvia as barracas como um predador espreitando a presa. O vento frio carregava um cheiro metálico, algo denso e úmido que grudava na pele dos pesquisadores. O Dr. Moreira limpou os óculos com mãos trêmulas e olhou para o monitor da câmera térmica. Algo estava errado. Havia formas se movendo na névoa – grandes, erráticas, como se não pertencessem completamente àquele plano de existência.
Um grito cortou a noite. Não um grito humano – era algo distorcido, um som que fazia os dentes rangerem e os ossos vibrarem. Então, a primeira barraca foi rasgada de dentro para fora. Sangue quente salpicou as folhas, enquanto o jovem assistente de pesquisa tropeçava para fora, segurando o próprio estômago com as mãos. Algo dentro dele se movia. Seus olhos arregalados encontraram os de Moreira, implorando por ajuda, mas antes que o doutor pudesse reagir, a pele do rapaz estourou como um casulo rompido, e uma sombra esguia emergiu, gotejando sangue e vísceras.
O acampamento explodiu em caos. Figuras altas e impossivelmente finas deslizavam entre as árvores, movendo-se rápido demais para serem vistas, mas lentas o suficiente para serem sentidas. Onde passavam, corpos caíam sem som, as expressões congeladas em horror absoluto. Os equipamentos de gravação ainda funcionavam, capturando flashes da chacina – um braço sendo puxado para a escuridão, um rosto se contorcendo antes de desaparecer em meio à névoa, o brilho pálido de olhos que não refletiam luz.
Então, tudo parou. O vento cessou, e o único som remanescente era o estalar da fogueira agonizando. A câmera principal, tombada no chão, transmitia sua última imagem: a clareira vazia, exceto pelas sombras se afastando lentamente, retornando para onde quer que tivessem vindo. No rádio, um chiado crescia, oscilando entre estática e murmúrios. E então, como se nada tivesse acontecido, uma voz baixa e distorcida falou, arrastada e fria:
“Bom dia, São Paulo.”