Local: Uma cabana isolada nas montanhas, noite fria
A lenha estalava na lareira, lançando sombras longas sobre as paredes de pedra. Valeria estava sentada em sua poltrona de couro envelhecido, os dedos entrelaçados sobre o colo. Seus olhos âmbar refletiam a chama, mas sua expressão era serena, inabalável. O Lobo estava ali, como sempre. Não visível aos olhos dos outros, mas presente. Sempre presente.
LOBO: “Eu a observei hoje.”
Valeria suspirou, mas não moveu um músculo. Sabia exatamente de quem ele falava.
VALERIA: “Cecilia.”
LOBO: “A menina é forte. Você sentiu, não sentiu? O sangue chama. Ela está na idade certa. Talvez seja hora de me apresentar.”
VALERIA: (calma, mas firme) “Ela tem quinze anos, Lobo.”
LOBO: (rindo baixo) “E quantos tinham os outros? Joaquim? Hansel? Niklas? Todos entraram no jogo muito antes disso.”
Valeria se recostou levemente, cruzando os braços sobre o peito.
VALERIA: “E todos eles caíram. Ou lutaram contra você, ou tentaram arrancá-lo de suas almas. E nenhum deles encontrou paz. Não me venha com tradições, você já viu aonde elas levam.”
O Lobo permaneceu em silêncio por um instante. Mas Valeria sabia que ele não desistiria tão fácil.
LOBO: “Mas ela tem algo diferente. Você sente. Você sabe.”
VALERIA: (olhando para o fogo) “Sim. Eu sei. Mas isso não significa que deve acontecer agora.”
LOBO: (impaciente) “Você me segura como uma coleira de ferro, Valeria. Eu deveria estar correndo solto em suas veias, guiando sua descendência como sempre fiz. Cecilia precisa de mim. Ela vai precisar.”
VALERIA: (virando-se para encará-lo, suave, mas inquebrável) “Ela precisa entender primeiro. Não ser jogada de cabeça nisso.”
O silêncio preencheu a sala, pesado como a neve que se acumulava lá fora. O Lobo não respondeu de imediato. Ele não gostava dessas perguntas. Não gostava das respostas que elas poderiam carregar.
LOBO: (baixo, quase um rosnado) “Ela vai precisar.”
VALERIA: (sorrindo de leve) “E ela terá a escolha.”
O Lobo andou em círculos dentro dela. Valeria podia sentir. O peso da fera, inquieta, frustrada. Mas ele não podia forçá-la. Não podia tomar o controle. Ela era a única Wolf que ele não podia dobrar.
LOBO: (murmurando, resignado) “Então esperamos?”
Valeria ficou em silêncio por um instante, fitando as chamas na lareira. Finalmente, exalou devagar, como se suas palavras carregassem um peso que ela mesma ainda não queria admitir.
VALERIA: “Eu vou me aproximar dela.”
O Lobo ergueu a cabeça levemente, interessado.
LOBO: “Ah… então você também sente. Sabe que ela já está perto demais do que não entende.”
VALERIA: “Não sou cega. Sei que Theo também anda ao redor dela e de sua avó. Sei que o Mythos tem uma forma peculiar de puxar quem quer. Mas antes que o mundo a engula, ela precisa saber quem é.”
LOBO: (sorrindo com algo próximo de orgulho) “Então você vai prepará-la?”
VALERIA: (olhando para ele, firme) “Eu vou guiá-la. Ensinar a verdade. Se um dia ela aceitar você, que seja por escolha, não por medo.”
O Lobo rosnou baixo, um som sem ameaça, mais como uma aceitação contrariada. Ele sabia que Valeria tomaria seu próprio caminho, como sempre fez.
LOBO: “Nós esperamos, então.”
VALERIA: (acendendo um cigarro, deixando a fumaça subir para o teto) “Nós esperamos.”
E, pela primeira vez naquela noite, o Lobo aceitou.