O Convite
[Interior do Café Floresta, São Paulo, 2032. 23h47. O café art déco está mergulhado em sombras, as antigas luminárias de bronze projetam padrões estranhos nas paredes. Theo está sentado em sua mesa habitual, seus olhos dourados refletem a luz de forma não natural enquanto ele traça símbolos invisíveis no ar. Uma mulher jovem com capuz se aproxima, hesitante.]
???: (sussurrando) Professor Theodoro…
Theo: (sem olhar para cima, um sorriso enigmático nos lábios) Você está morrendo, Clara.
[A mulher congela, suas mãos agarrando a beirada da mesa]
???: Como… como você…?
Theo: (finalmente olhando para ela, seus olhos brilhando com um conhecimento ancestral) O mesmo motivo que te trouxe aqui hoje. O mesmo motivo que faz você procurar respostas nas profundezas do metrô. A marca deles está em você. (gesticula para que ela se sente) Três meses, talvez quatro.
Clara: (removendo o capuz, revelando olheiras profundas) Os médicos dizem duas semanas.
Theo: (rindo suavemente) Médicos… eles só enxergam a superfície das coisas. Você viu além, não viu? Nas escavações. Viu os símbolos que se movem quando ninguém está olhando. Sentiu o pulsar da cidade antiga sob seus pés.
Clara: (inclinando-se para frente, febril) Preciso saber o que eram aquelas pinturas. Antes que… antes que…
Theo: (interrompendo gentilmente) Antes que o tumor te consuma? (seus dedos dançam no ar, deixando rastros luminosos que apenas Clara pode ver) O câncer não é natural. É o preço que pagamos por olhar muito fundo nos segredos deles.
Clara: Eles? Os seres das pinturas?
Theo: (seus olhos brilham com diversão) Oh, muito mais antigos que isso. Os verdadeiros donos desta terra. Os que os guardiões indígenas tentaram nos alertar sobre. (pausa) Mas você já sabe disso, não é? É por isso que está aqui. Não para encontrar uma cura, mas para encontrar um propósito para seu sacrifício.
[Theo remove um muiraquitã do bolso, a pedra verde pulsa com vida própria]
Clara: (olhos arregalados) É verdade então? Os sonhos… as visões… tem mais pessoas como eu?
Theo: (sorrindo) Sempre tem. Em cada geração, alguns são escolhidos para ver além do véu. Alguns, como você, pagam o preço. Outros… (seus olhos brilham mais intensamente) outros se tornam algo mais.
Clara: O que você é?
Theo: (rindo) Hoje? Sou apenas um professor aposentado que gosta de café forte. Amanhã… bem, amanhã é outro assunto. (desliza o muiraquitã pela mesa) Você tem duas semanas, Clara. Tempo suficiente para encontrar os outros. Três a seis deles. Os marcados, os curiosos, os que já viram fragmentos da verdade mas ainda não sabem interpretar.
Clara: (pegando o muiraquitã com mãos trêmulas) E depois?
Theo: (seus olhos agora completamente dourados) Depois? Depois você terá seu propósito. E eles terão um guia para o que está por vir. (levanta-se, sua forma parecendo momentaneamente distorcida) São Paulo está mudando, Clara. O que você encontrou nas escavações foi apenas o começo. Os antigos estão acordando, e precisamos de pessoas que possam ver a verdade sem enlouquecer… ou melhor, que possam enlouquecer da maneira correta.
[Theo caminha até a porta, cada passo deixando um breve rastro luminoso que se desvanece rapidamente]
Theo: (sem se virar) Duas semanas, Clara. Faça-as valerem a pena.
[Clara fica sozinha na mesa, o muiraquitã pulsando em sua mão como um coração verde. O barista continua seu trabalho, aparentemente alheio ao fato de que as sombras no café agora se movem contra a luz.]