[Entrada 43] - O que faz de um homem, um monstro?
Não sei exatamente quando comecei a escrever isso. Talvez tenha sido depois da terceira garrafa de uísque, ou depois de ver Elias de novo. Há dias em que me pergunto se tudo que sabemos está errado. Se estamos apenas classificando e rotulando o inexplicável para nos sentirmos mais no controle.
Mas não. Algumas coisas simplesmente escapam do que é humano. Algumas coisas se transformam. Algumas coisas… não deveriam existir.
A comunidade tem muitos nomes para essas coisas. Seres corrompidos, como a igreja chama ou Anomalias como o tratado define. Eu prefiro chamá-los de tragédias.
[Entrada 44] - O nascimento de uma Anomalia
Tudo começa com um feitiço. Nem sempre um feitiço grandioso, nem sempre algo intencional.
Magia é um fio fino ligando nossa realidade ao Mythos. Quando um conjurador puxa esse fio, mesmo que por um instante, ele abre um canal, uma ponte entre o que conhecemos e o que não deveríamos conhecer. A diferença entre um feitiço bem-sucedido e a criação de uma Anomalia é um mero erro: uma sílaba errada, um pensamento intrusivo no momento errado, um elemento em falta.
E então, em vez de apenas extrair um pouco de poder… o conjurador recebe demais.
Elias me contou uma vez como foi para ele. Ele só foi pego no fogo cruzado de seu filho. Um simples feitiço. Mas algo respondeu. Algo pegou a pequena centelha de magia e empurrou de volta uma torrente de poder bruto. Ele gritou. Disse que foi como ter o próprio universo esmagado dentro do crânio.
No final, o feitiço funcionou. Mas Elias nunca mais foi o mesmo. Ele se tornou parte daquilo que o filho invocou.
[Entrada 45] - O que significa ser uma Anomalia?
Anomalias não são monstros no sentido clássico. Pelo menos, não sempre. Elas são pessoas que passaram por algo que nenhum ser humano deveria passar. Pessoas que olharam o Mythos nos olhos e sobreviveram, mas não sem consequências.
Elas retêm seus corpos, suas lembranças, raras até seus medos e desejos. Mas dentro delas há algo diferente que por fim sempre leva embora sua essência humana.
Principais Características Das Anomalias:
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Conhecimento Sobrenatural:
- Elas sabem coisas. Não porque estudaram, mas porque o Mythos embutiu esse conhecimento nelas.
- Feitiços que levariam anos para aprender simplesmente surgem em suas mentes.
- O problema? Esse conhecimento nunca vem sem um preço.
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Vínculo com o Mythos:
- Algumas entidades do Mythos reconhecem essas pessoas como seus “filhos”.
- Algumas anomalias passam a ver o mundo de forma distorcida, como se vissem demais.
- Elas não precisam chamar o Mythos. Ele sempre as ouve.
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Mutabilidade:
- Algumas Anomalias sofrem alterações físicas. Pequenas no começo. Depois… nem tanto.
- Pele que se torna fria demais, olhos que parecem nunca piscar, vozes que soam erradas, como se mais de uma pessoa falasse ao mesmo tempo.
- Algumas desenvolvem habilidades impossíveis, como enxergar no escuro absoluto ou atravessar portas fechadas. Nada disso vem de graça.
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Sanidade em ruínas:
- Anomalias nunca são mentalmente estáveis. Como poderiam ser?
- Algumas se perdem na paranóia. Outras, na apatia absoluta.
- Há quem acredite que estão se tornando deuses. Outros apenas desejam não existir mais.
[Entrada 46] - O destino das Anomalias
Aqui é onde as coisas ficam complicadas. O que fazer com alguém que não é mais humano no sentido tradicional, mas que também não é um monstro por completo?
A Sociedade Arkan tem uma resposta: contenção ou vigilia. Para a Arkan, anomalias são ameaças ambulantes. E, honestamente? Elas são. Elias sabe disso.
Mas não posso evitar a pergunta: e se ainda houver algo de humano dentro delas?
Já vi anomalias ajudando outras pessoas. Já vi algumas tentando se segurar ao que restava de sua identidade. Algumas conseguem se controlar. Algumas não.
Talvez a diferença entre um aliado e um inimigo seja apenas quanto tempo resta antes de elas perderem tudo.
[Entrada 47] - O Fim Inefável
Elias um dia me perguntou se ele poderia voltar a ser normal, um raro vislumbre do homem frágil que ele foi um dia. Eu menti. Disse que talvez, que ainda podíamos tentar, que poderíamos encontrar um jeito. Ele sabia que eu estava mentindo e eu sabia que ele sabia, mas apenas continuamos a fumar nossos charutos.
Mas não há volta para o Mythos. Nunca houve. Nunca haverá.
As Anomalias são o destino final de qualquer conjurador que ousa puxar demais as cordas do universo. Elas são um lembrete cruel de que certos segredos não devem ser tocados.
E a única certeza que tenho? Elias ainda está por aí, segurando-se no pouco que restou dele. Mas um dia, ele também vai atravessar o limiar. Um dia, ele também deixará de ser Elias.
E quando esse dia chegar… serei eu quem terá que decidir o que fazer com ele, ou as famílias darão um destino bem pior.
- Blake Carmody