Descrição Física Para Os Jogadores

Histórico (Background)

1 - Praça Da Sé: Modo Furtivo

01:32 da manhã de 28 de março de 2018

Uma jovem mulher passando rapidamente entre os arranha-céus. De estatura baixa, com seus pouco 1,60 e de passos lépidos, e a quem visse, logo chegariam à mesma definição que muitos antes: Espevitada define a criatura.

O som e o cheiro da chuva que me trazem tantas lembranças, um breve instante e seria suficiente para arremeter meus pensamentos para outro lugar, quem sabe mesmo outra época.

Avanço rapidamente desviando-me com cuidado dos transeuntes desavisados, o receio em andar sozinha e me deparar com desconhecidos a noite vence o desejo de ajudar. Olho para o pedinte que tenta em vão se aproximar para pedir algo, dinheiro, comida ou qualquer outra coisa, não importa. Tento focar em um pouco pouco acima do homem, e sigo firme adiante, rápida e furtiva. Afinal, aquele lugar pode ser aconchegante em alguns horários, não aquele.

Ciente de que às duas da madrugada, tão perto da cracolândia do centro velho que insiste em manter-se viva e ativa, desafiando à lei, se é que existe lei por aquelas bandas. Tenho minhas dúvidas.

Passo abaixo do viaduto Anhangabaú, a enorme estrutura em aço com adornos propositalmente vitorianos sempre me encantam, antes que eu perceba estou parada, totalmente hipnotizada, que desleixo, nem a hora nem o local eram ideais para aquilo. Os olhos vidrados, molhados com a lembrança da última vez que estivera ali com seu pai, ele sempre gostou de prédios antigos, sobretudo os do centro, que saudades das longas caminhadas na época de colégio.

Subo as escadas aos saltos, tentando ser ágil, ali certamente era o ponto mais perigoso, já tinha ouvido relatos de assaltantes que encurralavam suas vítimas nas escadarias, ao estilo Termópilas às avessas. Assim que alcança o topo da escada, olha de relance para a base da mesma e um sorriso brota-lhe a face. Uffa!

Em poucos instantes o antigo prédio do Banespa emerge nos céus acima de minha  cabeça, meu objetivo estava próximo, continuo apressada até o final do calçadão e enfim os grandes coqueiros. Enfim, cheguei estarei mais segura na companhia de meus amigos, pensei.

Não demorou mais do que cinco minutos para descobrir que levara um bolo, o grupo de RPG Live action não estava ali, que inferno pisaram na bola, de novo.  - Filhos da Puta!

Antes que a raiva se esvaísse, olhei ao redor me vi sozinha, já era tarde demais para voltar de metrô, os dedos deslisam rápidos pelas teclas de atalho do celular e em  poucos instantes um carro da rede de associados da Uber. 

Meia hora depois já estava chegando em casa, foi a parte fácil, havia se programado para ficar jogando boa parte da noite. Seus amigos, alguns da época do colégio e muitos outros que conhecera na época da Faculdade Metropolitana de São Paulo de Medicina. O encontro era mensal, durava até o fim da madrugada. Era uma das poucas diversões que manteve da adolescência, tirando os jogos de tabuleiro. 

Naquele momento, entrando de fininho no prédio para não ser vista, uma coisa era uma jovem médica sair a noite sozinha, meus Deus não estamos mais nos anos 20, mas, outra era sair vestida de agente do FBI, com sobretudo longo, impermeável, calças e sueter ao estilo anos 90, seria um grande mico!

Poucos passos a separavam de uma boa noite de sono sem que toda a sua autoestima e imagem fossem destruídas, mais dois andares… Qual é !!!??? - o elevador parou -  Ninguém sai de casa esta hora da noite (pensei) … As porta abrem-se, com a respiração paralisada olho fixamente a porta se abrindo, e, diante dela ninguém menos que Dna Helena, a síndica e informante oficial de todas as fofoqueiras num raio de quilômetros,  principalmente agora que as distintas senhoras encontram-se munidas de Whatsapp. Ela olhou-me de cima a baixo, se fosse para ganhar um prêmio eu julgaria que ela a havia tentado farejar alguma coisa, como um daqueles cães da polícia treinados para encontrar drogas, bombas e desaparecidos.  

  • Bom dia Laura! O sorriso amarelado pelo cigarro e um olhar perscrutador me incomodava demasiadamente. Em pensamentos rezei algumas Ave Marias, para que o elevador fosse mais rápido, por pouco não rezei para que o Sr. Scoot  e seu teleporte da USS Enterprise. Dna Helena nunca me perdoou pela reprovação de todas as suas obras no comitê do condomínio, o motivo era real, eram caras demais, mas Dna Helena pouco se importava. Acho que chega uma hora que só a vingança importa… 

  • Bom dia Dna Helena, tudo bem? O hiato na resposta gelou meus ossos, o que será que estava passando na cabeça da anciã linguaruda, enfim seu andar chegou. A salvação estava a poucos instantes … nenhum comentário é melhor do que algo sarcástico que me perseguiria por meses dos corredores do prédio à dona do bistrot que amava tomar café aos domingos pela manhã. Uffa! As portas se abrem, nenhum comentário.

  • Até outra hora Dna Helena, um bom final de semana. O hiato na resposta permaneceu enquanto o bipe sinalizava que as portas estavam fechando, e, para seu horror absoluto a resposta vinda de um largo e malicioso sorriso, a resposta saiu por entre os dentes amarelos.

  • Boa noite Agente Dana Scully!

Meus olhos esbugalhados denunciaram o desespero, não houve tempo ou aptidão social para a dissimulação do susto.  Logo pensei … Algo me diz que os próximos meses serão infernais!

2 - O Fim Da Inocência

Enfim estava em casa, assim que fechou a porta atrás de si, foi tirando os sapatos deixando na cômoda ao lado da entrada. Evitava sempre que possível entrar em calçada em casa, preferia um ambiente mais limpo e ordenado.  O loft grande mas aconchegante foi comprado com muito suor de muito trabalho, em seus dois anos jamais tirou férias, vendia todas e também dobrava turnos constantemente, tudo para pagar sua “Dungeon” como ela chamava sua “Toca”.  

Dez minutos depois, já havia tomado um banho e estava com uma taça de vinho tinto, um importado alemão que ela nem imaginava como a pronúncia certa, mas era delicado e tinha um aroma frutado. Não era necessário mais que isso para desacelerar seus pensamentos, levantou-se apenas para levar e pendurar a taça e escovar os dentes. O sono magicamente não demorou a chegar.

O último pensamento antes de pegar num sono pesado foi dirigido à seus pais, que saudades que sentia deles, mas, na manhã seguinte os veria. Eles estavam em um cruzeiro marítimo ao redor do mundo há quase um ano . Haviam chegado por volta das 23:00, passariam o resto da noite num hotel e pela manhã alugaram um carro para voltarem para a capital. O sono abateu-se sobre ela com um sorriso no rosto.

03:45 o celular sobre o criado mudo toca insistentemente, ela desperta ainda e atende ainda meio sonolenta. - Affe, quem seria, tinha avisado a todos que estaria de folga durante todo o final de semana. 

Em menos de cinco minutos seu semblante mudou inúmeras vezes, do espanto à incredulidade, dela para o horror e a tristeza. Um policial rodoviário do Complexo Anhanguera, informou sobre um engavetamento envolvendo muitos carros, bem como o do motorista do Uber que levava meus pais, ninguém sobreviveu ao acidente.

Tudo que aconteceu nos dias que se seguiram formam uma mancha de terror que não se apagava, nem mesmo a condolência dos inúmeros amigos e colegas seus e de seus pais puderam aplacar a dor. Não encontrava paz nem em seu apartamento nem na casa dos pais. 

Não conseguia trabalhar e menos ainda estar na presença dos amigos, tudo lembrava a noite daquela fatídica ligação. Decidiu afastar-se de tudo e de todos. Conversou com os superiores em seu trabalho, o pessoal do Albert Einstein foram compreensivos, seus pais eram conhecidos por trabalharem no Sírio Libanês, e, muitas vezes eram a opção de alguns dos médicos que trabalhavam com ela, seus nomes ecoavam pelos corredores a cada rosto de colegas que os conheciam.

Decidiu viajar pelo mundo, um mochilão sem destino ou rota. Apenas voltaria a São Paulo ao encontrar um pouco de si mesma ao olhar-se no espelho…

3 - Olhar Interior

Surat Thani - Tailândia - meados de março - 2019

O som suave do gongo indica que o momento de meditação acabou, durante pouco mais de um mês que estava no mosteiro, tentando através daquela prática manter a maior parte do tempo seus sentimentos sob controle. 

Sempre tivera um temperamento ativo e independente, mas sua base era profundamente ligada aos pais, e sem eles sentia-se deslocada, à parte no mundo, exceto por sua tia Clarice, irmã mais nova de sua mãe e amiga que podia contar apesar do contraste entre as duas.  A tia de trinta e cinco anos era extravagante e animada, cheia de amigos, baladeira e nunca ficava sem namorados, enquanto ela preferia a solitude, bons livros, jogos online e vez por outra uma boa jogatina de tabuleiro ou raramente um live action nas ruas de Sampa, na maioria das vezes, só que agora ambas estavam quebradas de uma forma que somente o tempo haveria reparar.

Enquanto abria os olhos lentamente viu os monges do templo e os demais convidados, era uma pena que havia acabado, levantou-se calmamente para não atrapalhar os outros. O último dia com eles foi especial, jamais esqueceria aquele momento.

Após viajar por parte da Ásia e Europa, a vida a levou a passar um tempo prestando ajuda humanitária na instituição dos médicos sem fronteiras. Muitos precisavam de ajuda,  principalmente na África, onde ficara alguns meses. Lá em meio daquele povo carente de tudo e com tudo para ser infeliz ela ainda encontra sorrisos em todos. Isso a fez reavaliar muito de sua postura em relação à vida, apesar de suas perdas, aquele povo a ensinara que ainda havia muito a fazer por tantas pessoas e também por si mesma.

Alguns meses depois de iniciar seu trabalho na MSF em Mianmar recebera uma mensagem de Clarice informando de seu retorno à capital de São Paulo. Estava viajando por todo litoral brasileiro nos últimos meses, dedicando-se à uma pesquisa para avaliar o possível impacto ambiental na extração de petróleo no pré-sal. Talvez ela também estava procurando reencontrar-se, pensou ao ler a mensagem.

Ao terminar de ler a mensagem da querida Clarice, algo despertou em seu íntimo, já não se sentia tão alquebrada, talvez tenham sido as intermináveis meditações, a comidinha vegetariana deliciosa preparada com o auxílio de todos ou tão somente doar-se aos outros nos últimos meses. A verdade é que ela já se reconhecia ao olhar no espelho, deixara de ser um arremedo de gente e voltara a ser quem realmente era, seja lá o que isso significava.

4 - Mensagens Do Passado

São Paulo - 29 de outubro 

São Paulo emanava um ar lúgubre se comparada às florestas e savanas que menos de um dia deixou para trás. O Airbus A380 colossal taxiava sobre a cidade de Guarulhos, as luzes das cidades unidas devido ao crescimento refletiam nas nuvens baixas próximas ao centro da cidade. 

Não demorou muito e já estava num táxi rumo ao seu apartamento. Passou rapidamente pela portaria, não queria conversar com ninguém, pegou o elevador secundário desta vez. E enfim estava em casa, mesmos móveis, mesmos badulaques à exceção de um pesado baú de madeira próximo à mesa de centro da sala, próximo à lareira.

Laura olhava intrigada, entrou e trancou a porta atrás de si. Solto a pesada mochila ao chão, logo tirando as botas Caterpillar marcadas pelo uso e quilometragem.  Seguiu até o estranho baú. Sobre ele uma carta do advogado da família, informando sobre os desejos de meus pais, herança e outros pormenores, na última linha, a entrega da pesada caixa.

Abrindo-a rapidamente, com uma mistura de excitação infantil, o coração batia rápido e apertado. Logo pensou: o que meus pais queriam me passar?  O que haviam planejado? Laura sabia que eles sempre foram cuidadosos com o futuro, mas não imaginava ao como aquilo a sua frente.

Com lágrimas nos olhos levanta a tampa, livros, mapas, coisas antigas, algumas delas certamente nunca vira, sobretudo uma carta… o antigo envelope amarelo sem inscrições somado ao papel grosso e rugoso como se pertencesse à outra época. 

Delicadamente abriu a carta enquanto enxuga a face com a manga da jaqueta desgastada, ao ler as palavras intercaladas de seu pai e sua mãe que escreveram o texto juntos, alternando de mão em mão com suas inconfundíveis caligrafias finas e precisas. De palavra em palavra, o texto transformando-o numa melodia de impressões de um passado que não voltaria, repleto de imagens, sons, cheiros, toques e muita, muita emoção. 

Termina de ler o pequeno texto, entendendo o recado enviado com tanto carinho, como uma cápsula do tempo ou mensagem numa garrafa lançada ao mar na esperança de encontrar novas esperanças ou novas pessoas num mundo e épocas distantes às quais se encontram aqueles que a escreveu.

“Naquela parte do livro da minha memória, antes

da qual pouco poderia ler-se, há urna epígrafe que diz

Incipit vita nova. Sob tal epígrafe se encontram

escritas as palavras que é meu propósito reunir na presente

obrinha, senão em sua integridade, ao menos

substancialmente”.

Na sala escura e silenciosa de um apartamento vazio e carente de vida por tantos meses ela ajoelhou-se diante do antigo baú, abraçando fortemente a carta e lágrimas lavaram sua face, agora ela lembrava um pouco de onde vinha, de quem era e já não se sentia mais sozinha…

5 - Jet Lag Da Vida Cotidiana

30 de outubro

Algumas coisas da vida podem parecer simples, comuns àqueles cujos dias são vividos passo-a-passou, tarefa-a-tarefa, quiçá algumas pessoas encontrem sossego nestas habitualidades da vida, certamente, Laura não era uma destas. Preferindo as idiossincrasias da vida, que a faziam pular de medo e excitação a cada problema, por outro lado, encarar as simplicidades do cotidiano, fazer compras, arrumar a casa, tudo da mesma forma lhe ter-se-ia demasiadamente monótono. 

Talvez, se não fossem os meses passados no monastério, fazendo participando de uma rotina inalterável seja no sol ou na chuva, ela jamais pudesse aprender a aproveitar estes pequenos momentos de indulgência, onde, conseguia focar em arrumar a casa enquanto olhava para dentro de si mesma procurando perguntas e por vezes respostas que jamais imaginara.

Se o dia passou rápido ou não, seria difícil de dizer. Os minutos de cada pequena tarefa eram confundidos com horas intermináveis, regadas de um bom LP tocando John Coltrane, um daqueles Jazz das antigas. Chorou muito ao ouvir Naima, música que sua mãe gostava tanto, as lágrimas rolavam incessantes de seu rosto para o piso de madeira do loft, uma fugaz memória contendo as palavras de sua mãe: - Não deixe cair água no piso de madeira menina, fica tudo marcado … Um sorriso lhe sobreveio ao rosto triste, ela não limpou as lágrimas, nem chegaram a passar o verniz - pensou. 

Mal sabia Laura, que aquelas mesma quase que imperceptíveis marcas de lágrimas no piso de seu loft permaneceriam por anos e anos afinco até que o pequeno prédio fosse demolido décadas depois para dar lugar a mais um arranha-céu na cidade que nunca parava de crescer sobre os ossos de seu próprio passado.

Diários Da Crônica

6 - Corrida Infernal

04:32 da manhã - 31 Outubro 2019

 

Existem momentos que marcam a nossa história nesta vida, e acredito que até mesmo na próxima. São divisores de águas entre o que éramos antes e depois deles. Hoje vivi um destes momentos…

Nunca acreditei que ainda havia entre aqueles que lutam diariamente para viver de um trabalho honesto, indivíduos que se dispõe a cruzar a linha entre o Homem e o Animal. 

Talvez tenha sido a sorte que me proporciona-se conviver bem com a esmagadora maioria das pessoas as quais tive contato ao longo desta minha curta existência, ou quem sabe alguma afinidade de outras vidas ter semeado fortunas necessárias para que até aquele momento jamais eu houvesse que me deparar com os horrores indizíveis que tantos passam dia-após-dia mundo afora.

Quem sabe sejam os karmas sejam cobrados por aqueles cujas nossas dívidas para com eles sejam maiores que nossos méritos para com o mundo, se assim for, eu devo estar devendo muito … 

Quando esta afinidade infinidade chega, e as causas-e-efeitos alinham-se criando estes momentos únicos e marcantes em nossa existência. Eles chegam arrebatando-nos daquele estado de ingenuidade e alegria primaveril e nos lançando abruptamente sobre o chão frio da real condição da existência humana, e deste estado jamais sairemos.

As luzes da cidade estavam particularmente encantadoras naquela madrugada. Ao passar pela Avenida Paulista, os holofotes dos prédios em tonalidades de branco e amarelo ouro iluminavam as nuvens baixas que pairavam pouco acima da capital. Não havia neblina naquela noite, mesmo o frio estava ameno, indícios de mudanças cada vez perceptíveis no  que um dia fora a Cidade da Garoa. 

Após um jantar com amigos do velho trabalho e faculdade, marcando meu retorno à cidade, acionei via aplicativo um carro do Uber, já era tarde e todos ali exceto eu haveriam de trabalhar no dia seguinte. 

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Não demorou muito, e logo já estava à caminho de casa, o motorista um jovem alto , bem apessoado e conversador, guiava o carro tranquilamente em direção a Vila Mariana. 

Embora a distância não fosse grande, a intrincada malha viária da cidade torna tudo mais lento, mesmo naquela hora alguns pontos da cidade ainda sofriam com excesso de carros parados nos semáforos.

O motorista demonstrou não ser apenas falante, mas agora começa a puxar  assunto de forma mais incisiva, perguntando acerca de minhas amigas e não deixando em nenhum momento de tecer elogios, beirando algumas vezes a indiscrição.

Laura, naquele momento sentia uma inquietação surgir em sua mente, sua resposta emocional fora entrar em estado de retração, optando pelo silêncio à conversa. Foi quando ela atentou, que o carro não virava na direção certa, entrara noutra rua afastando-se de seu destino por uma rota não usual, que evidentemente os distanciariam do destino.

De súbito seu coração palpita rapidamente, não pelo medo a princípio, mas pela falta de senso do motorista que escolheu a rota errada, apesar do GPS sinalizar claramente o caminho. Ela o questiona sobre sua decisão, e o homem mentira descaradamente sobre a escolha da rota.

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A mentira somada às tentativas de cantada e as insinuações claramente inapropriadas fez seu coração disparar rapidamente, agora não por raiva mas por medo. Um medo incontrolável, como uma corsa que se vê descoberta como um predador, espreitando-a com olhos cruéis.

Dando voz a seus medos e raiva, Laura pede para o motorista voltar para a avenida movimentada que leva direto para sua casa, ao negar esta opção a ela, a profunda voz em sua mente transforma-se em urgência, ela pede para que ele pare o carro ou chamará a polícia, ameaça enquanto discava rapidamente para sua Tia Clarice.

Naquele momento, para seu espanto o motorista começa a gritar com ela, xingando-a de vários nomes e bravejando de ira. Ele freia o carro abruptamente, parando-o no meio da rua, rapidamente ela tenta sair do carro, ele havia travado as portas, mais uma batida no coração que retumbante responde ao medo.

O jovem que outrora adora uma postura de galanteio agora parte abertamente para a agressão, como um animal enraivecido tenta agarrá-la passando por entre os bancos com seus braços tentando envolvê-la, ela grita em vão tentando desvencilhar-se dele num gesto inútil ao tentar escapar do carro trancado, não havia para onde ir, não havia nada além da escuridão daquele momento e dos olhos repletos de ódio e lascívia do homem em direção a ela. 

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Sua mente acelera num turbilhão de pensamentos, dos piores possíveis, ela tenta buscar uma maneira de defender-se, meu Deus, por quê não vim de cabelo preso com algo pontiagudo, um palito que seja, a bolsa,  a bolsa, não havia mais tempo de procurar qualquer coisa e a idéia logo lhe pareceu vã, pois se lembra de apenas ter colocado coisas triviais apenas para dar volume e não ficar com o celular dançando de um lado para outro e andar com uma bolsa parecendo um saco vazio, não há nada ali que pudesse ajudá-la.

O agressor agora tenta agarrá-la dirigindo os braços para frente, com um raio ela lembra de uma aula de ortopedia de trauma, um cotovelo deslocado, como acontecia, como reparar, uma ideia fulgura em sua mente e ela vence o medo e agarra o pulso do homem, tentando deslocar-lhe o cotovelo segurando com um pé no ombro e usando de seu peso e força para dobrar o braço num ângulo impossível, deslocando a cápsula do cotovelo. 

O homem urra de dor por um instante, ele tenta se desvencilhar lutando contra a pequena mulher do banco de trás. A força e o ódio vencem a delicadeza e o medo, para o horror de Laura, ele se desvencilhou do golpe como se não fosse nada, como um adulto afastando uma criança birrenta, agora o terror em seus olhos ao fitarem-no o excitava ainda mais. Seu olhos outrora brilhando de raiva, agora pulsavam com crueldade e ódio, em sua face  abria-se um sorriso de lascívia tórrida. Para ele, a corsa havia sido pega.

Naquele momento nada mais lhe restava, só havia uma rua escura, gritar de nada lhe adiantaria além de o prazer doentio do monstro. 

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Enfrentando seus medos, partiu para um ataque imprudente ao homem com o dobro de seu peso. No momento em que o monstro dirigiu-se contra ela com os braços abertos para agarrá-la num laço inescapável ela viu a oportunidade, e, com toda a força que restara forçou os pés na porta as suas cotas, crispou os dentes protegendo a língua no interior da boca e saltou para frente usando o topo da cabeça como arma, num golpe mirado na face do agressor. Por um momento, a corsa revida.

Ouviu-se um estalo seguido de um grito, como um animal ferido e com o nariz jorrando sangue o monstro gritou, mais alto do que ela até o momento. Bradou desesperadamente agarrando-se ao nariz evidentemente quebrado num ângulo evidentemente nada natural. 

A violência aumentou e ele tentou agredi-la de onde estava, com os pés e uma das mãos enquanto a outra segurava o nariz quebrado.

Em meio ao desespero de não ter mais outra chance de acertá-lo ou conseguir bloquear sua investida, o inesperado acontece. 

Três pessoas apareceram do nada alcançaram o carro, gritando e batendo tentando entrar, cientes de que algo nefasto estava ocorrendo, enquanto um deles golpeava o carro com uma bengala, quebrando o vidro do motorista e destrancando todas as portas.

Naquele momento, como se minhas preces tivessem sido atendidas, uma jovem abriu rapidamente a porta, acho que só de pôr os olhos na situação ela de súbito entendeu e agiu com muita empatia. Naquele momento, ela sai do carro afastando-se do agressor.

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Dois homens que aparentemente estavam com ela começam a tentar impedir o homem, enquanto a jovem afasta Laura daquele cenário hediondo.

A jovem levou-a para um bar em que trabalhava, assim que as duas recuperaram o fôlego elas foram de encontro aos homens, o medo de Lara do agressor estar com uma arma de fogo, algo comum nestes dias. Munidas cada uma com uma vassoura voltaram rapidamente, apenas para encontrar os homens sendo rendidos por policiais.

O homem alto, que quebrara o vidro do motorista estava com a boca e a camisa banhadas em sangue, enquanto o agressor estava com as calças ensanguentadas, algo na virilha do homem estava sangrando copiosamente.

Não demorou muito para explicar que o estava acontecendo aos policiais, tratar um de seus salvadores, o homem alto e valente chamado Theo que impediu o agressor de fugir e sofrera muitas pancadas com isso.

Alguns minutos depois a polícia deixou o local, uma ambulância levou o agressor e eu segui meu caminho com o policial para dar meu depoimento e deixar meus salvadores em paz de vez, pois, pelo que entendi, a presença da polícia no local era pouco ou nada interessante para eles naquele momento.

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Tia Clara já estava mais calma e havia dado o depoimento do que ouviu enquanto tudo acontecia no carro, enfim uma vez liberada foi fácil tomar carona com uma viatura que passaria próximo a sua casa e enfim terminar aquela estranha madrugada, recheada de desespero mas também de novos encontros que, apesar de renovar um pouco sua fé na humanidade, deixou claro que jamais encararia sozinha a noite daquela cidade da mesma maneira, e que há monstros em todos os lugares.

Enquanto tentava embalar num sono que não chegava, um antigo poema que havia lido traduzia de forma lúgubre aquele momento de desencanto com ao perceber um lado tão sombrios nas pessoas.

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“Houve um tempo

em que a campina, bosques, córregos,

a terra, e toda a sua visão tão 

ligada a mim

pareciam envoltas numa luz celestial

a glória e frescura de um sonho.

Não é de agora mais do que outrora.

Devo ir a outro lugar

de noite ou de dia,

as coisas que eu já vi, agora não vejo mais…

…Mas há uma árvore,

de tantas uma

Um único campo 

a qual uma vez olhei.

Ambos falando

de algo que sumiu.

O amor-perfeito à meus pés 

conta o mesmo conto de novo.

Para onde fugiu

o visionário brilho?

Onde está agora…

a glória e o sonho?”

7 - Felizes reEncontros

31 de Outubro -  por volta das 09:00

Apesar das poucas horas de sono, para Laura acostumada a plantões intermináveis, acordar não fora difícil. O dia estava bonito, um café reforçado daria conta de melhorar o seu dia enquanto buscaria algo para fazer.

De forma calma e sistemática avaliara o baú deixado por meus pais, logo acima das coisas encontro a ordem de pedido de ingredientes numa loja de São Paulo, a lista chamou sua atenção pelos ingredientes, todos orientais. A data de retirada havia passado a poucos meses, e seja lá o que for, ainda devia estar lá.

A curiosidade foi crescendo e logo a ideia de ir até a loja, para conhecer um pouco sobre aquele lado de seus pais que não conhecia a encheu de alegria, diminuindo um pouco a tensão dos eventos da madrugada anterior, decidiu sair, desta vez: Nada de Uber !!!

Enquanto se arrumava recebeu uma ligação de sua amiga, a Dra. Catarina, sua antiga mentora enquanto trabalhava no H.C., ela estava bem e pediu para que cobrisse seu turno noutro hospital, próximo ao Morumbi. Laura concorda de imediato.

Ela agora teria algo a fazer pela manhã e um turno de 12 horas iniciando a noite para se ocupar. Uma boa chance para colocar a vida em movimento outra vez, e talvez sentir-se normal.

Não demorou muito para se aprontar e sair em direção ao endereço da loja marcado no recibo. Atravessou a cidade de carro, sem pressa, chegando rapidamente a Zona Leste. Dando graças a Deus por ser logo no início, pouco depois do Parque São Pedro.

Chegou a Loja, de aspecto simples e acolhedor, cheia de prateleiras com ingredientes variados, todos aparentemente de medicina e algo a mais.

Foi recepcionada por uma sra oriental, que logo se mostrou interessada no recibo, e chamou um sr. também oriental seu aspecto denotava antiguidade no sentido da palavra, não só no aspecto mas também na fala e comportamento. Reconheceu-o, apesar de longos anos terem se passado desde que o vira ainda na tenra infância. 

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Logo começamos a conversar sobre meus pais, que eram bons amigos deles a muito tempo. Ao que parece eles trabalhavam juntos em alguma coisa, aparentemente envolvendo cura usando medicina tradicional chinesa e algo talvez ainda mais heterodoxo que isso e possivelmente mais antigo.

Tomaram um bom chá, conversaram e logo ele mostrou um pouco mais da loja e contaram o que sua mãe trabalhara com ele e aprendera várias coisas que ela sequer conseguiria entender, mas um sentimento lhe dizia que iria entender, com o tempo.

A cordialidade daquelas pessoas a marcaram muito, não só pelo chá e conversa, mas a calorosidade de um reencontro após mais de 21 anos, isso a fez sentir pertencendo a algo e dando continuidade ao trabalho de sua mãe, numa faceta dela que ela sequer sabia que existia.

Decidiu aprender com eles tudo o que estivessem dispostos a ensinar. Lhe apresentaram os fundos da loja, e lá, outros ingredientes ainda mais estranhos estavam nas prateleiras devidamente organizados. Haviam algumas coisas normais e outras beirando o anti-natural. 

Recebera um livro para estudar, e se preparar para os novos ensinamentos, faria isso com todo o coração. Uma forma de manter a memória de seus pais continuamente viva em seu quotidiano.

Ao se despedir, o velho Sr. lhe deu uma Ampola para eu usar em caso de extrema necessidade para controlar e parar algum sangramento ou infecção (líquido amarronzado com um pouco de brilho) e um Sachê que deveria ser usado para fazer alguém  dormir e ter sonhos vívidos do que qualquer outra coisa. (cheira a camomila)

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Despediu-se com felicidade daquele povo, levando não só os presentes, ensinamentos num livro e seus contatos, mas também a alegria de pertencer a algo que seus pais pertenceram, dando continuidade a um trabalho de cura em níveis e esferas que jamais sonhara em estudar dentro da medicina ocidental moderna.

Seguiu para o carro, ao entrar chorou por um bom tempo, não por tristeza, mas pela alegria de não mais sentir-se tão deslocada, podendo reconectar-se aos pais de forma que ela jamais imaginara possível.

8 - Mistério no Hospital

31 de Outubro -  Pouco depois das 20:00 horas

Enquanto estava me arrumando e segui para encontrar as pessoas em que compartilharia meu turno, ouvi um rebuliço total nos corredores. Encontrei a enfermeira Jaqueline, cortada pelo Samuel (motociclista acidentado) enquanto brigava com os enfermeiros para fugir. Uma cena que já vira em outros lugares do mundo, mas nunca ali em plena Sampa de meu Deus.

Alguns pacientes me chamaram muito a atenção naquela noite, todos com ferimentos nas orelhas, nunca havia ouvido falar de automutilações assim, em série.

O primeiro que descobri foi um paciente chamado Jeremias (paciente orelha cortada), com 42 anos, diabético, automutilação, alegava dor de cabeça intensa e ouvia coisas, chegou com mutilação total da orelha direita. Atuava com Segurança no Edifício Residencial Portal do Morumbi.

Ao ouvir da enfermeira que aquele caso não havia sido o único nas últimas horas, decidi pesquisar no sistema todos os relatos similares. 

Descobri que vários moradores do mesmo prédio haviam sido atendidos, três em menos de trinta horas, e mais um aqui.

O jovem  Thomas Moraes, acompanhado pela mãe, com ferimento auto-infligido, alegou que havia “um bicho que o incomodava e não parava de dar risadas”, cortou ambas as orelhas, principalmente a direita que tentou remover por inteiro. A mãe justificou que o vizinho de cima estava fazendo muito barulho e não deixava dormir, e o filho assiste muitos filmes de terror no youtube.- criança veio com a mãe, ouvia uma risada constante e queria parar de ouvir, por isso cortou a orelha na fútil tentativa de bloquear o que ouvira. 

Uma senhora chamada Cristiana Cavalcante, foi atendia ontem pela pela manhã. Chegou ao PS com cortes na orelha direita, acompanhada por seu filho. Alegou ouvindo algo que não deveria, muitos risos e não a deixava dormir a três dias. Balbuciava que o vizinho de baixo, O Mário e seus risinhos…o marco e seus risinhos… Não sei o motivo, mas estas palavras ficaram em minha cabeça, como um sussurro de horror e aversão ao que quer que fossem aqueles sons. 

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Após verificar no sistema, a busca me levou às informações abaixo:

NOTAS:

Todos os pacientes moram na mesma torre 3 do condomínio Residencial Portal do Morumbi.

Andares onde moram:

10 acima a cristina - manhã do dia anterior

09 (vizinho barulhento) *** - (Mário possivelmente o vizinho)

08 thomas no meio - 14:00

08 Fátima (vizinha genérica do 8º andar nº1) No dia anterior, alegou que não conseguia dormir devido ao barulho feito pelo vizinho. 

(Jeremias segurança no turno noturno mesmo bloco) 20:00

Nomes dos médicos anotados:

Jaqueline atendeu a todos, exceto os da moto.

Willian, teoricamente o médico, que atendeu o cara da moto.

Samuel motociclista acidentado que fugiu.

Nas proximidades há a favela Morro do Coquinho, onde várias pessoas com desnutrição recorrente - algumas pessoas atendidas pela Catarina, o que é interessante pois posso questioná-la sobre isso quando possível.

Tentei conversar com a assistente social, não havia ninguém de plantão naquela noite.

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9 - Um Homem Chamado Meia Noite

01 Setembro por volta das 02:00

Perto das 02:00 o alarme de emergência toca novamente e uma quarta vítima surgiu.

Atendi um homem, que chegara ao hospital com as orelhas quase arrancadas. Diferentemente dos outros, não alegou automutilação, apesar de alegar se chamar Rúbio Oliveira da Silva, o homem de modos um tanto elusivos, tentando inúmeras vezes esquivar-se de responder praticamente qualquer pergunta, enfim decidiu explicar o que havia visto.

Alegava estar em frente ao quarto que eu julguei ser o epicentro de todos os incidentes até o momento, e, sem conseguir concluir sua entrega foi “atacado” por algo que lhe cortava as orelhas, denotou que este “algo ria muito enquanto fazia isso” e que não vira o agressor, dando a entender que o agressor fosse algo “não natural” ou mesmo sobrenatural. 

Algo em mim considerou aquilo perturbadoramente consistente com todos os relatos que havia recebido, sempre acreditara na existência do espírito, mas aquilo era algo muito diferente, em sua mente lembrou de seus novos amigos orientais e o quanto talvez eles pudessem saber sobre isso, mas logo, sua mente voltou ao trabalho.

Não havia alguém de cirurgia plástica no hospital naquela noite, a única chance daquela homem manter suas orelhas seria uma cirurgia delicada ali mesmo, não era possível esperar o dia seguinte.

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Concentrou-se o melhor que pode, e trabalhou durante mais de uma hora em cada uma das orelhas, reparando vasos, recosturando cartilagens e pele com delicadeza para manter a funcionalidade e o aspecto o mais natural possível, com o mínimo de cicatrizes.

No final tudo deu certo, o jovem aparentemente não queria ser interrogado, ela entendeu, e ao finalizar os tratamentos saiu para ir ao toilet, deixando-o a sós na enfermaria. Ao voltar viu que não havia mais nada lá, a página com as respostas pessoais já não estava mais lá.

A única lembrança que tivera do estranho homem foi um bilhete com um número de telefone deixado em seu avental e um relógio na parede com a hora fixada numa hora em particular em “meia noite”.

10 - Desencontros E Esquisitices

08:00 horas

Após uma noite corrida e estranha, enfim seu turno acabara. Laura empenha-se em tentar contatar sua amiga, e ambas combinam de se encontrar na StarBucks da Paulista, às 10:00 horas.

Aproveitou para relaxar um pouco, no carro, pensando sobre os estranhos acontecimentos da noite anterior. Antes que percebesse, a hora avança e já está chegando a hora de partir se quiser seguir pelo caótico trânsito de São Paulo sem se arriscar, afinal, estava acordada a muito tempo.

Pouco antes das 10:00 ela encontra-se no local combinado. Nada de sua amiga Catarina aparecer ou dar qualquer sinal de vida.

Depois de um bom tempo, ela decide voltar para casa e descansar. E ao sair, percebe uma mulher, que aparentemente não tem qualquer sensibilidade ao calor, conversa com ela um pouco, e percebe que a Sra. Garcia além de não ter sensibilidade tem um aperto forte e mãos extremamente frias.

11 - A Mulher De Cabelos Cor De Piche

Ao voltar para casa, logo percebe numa derrapada que chegou a hora de trocar os pneus do velho fusca, faz uma anotação mental de procurar por algum lugar com preço justo próximo de casa, se é que existe.

Ao chegar em casa, toma um banho rápido e cai na cama, exausta por uma noite e madrugada agitada, e também, por estar mais de 30 horas acordada.

Ela desperta às 12:45, vai até a cozinha e chegando lá, após beber um copo d’água, coloca no micro-ondas para aquecer líquido, deixando-o morno, como havia acostumado em sua viagem pela China.

Enquanto começa a beber, agindo quase que de forma mecânica, seus olhos recaem sobre a janela da cozinha, as cortinas abertas revelam um céu estranhamente antinatural, de coloração roxa, estranhamente doentio. Ela olha para a estranha cena, ainda descrente, passa a mão sobre o vidro do lado de fora, procurando algum tipo de sujeira arroxeada no vidro.

Foi neste momento que ela começou a ouvir sons de risadas no seu quarto, ela dá um pulo de susto, lembrava de ter trancado a porta do apartamento, e, sempre mantém as janelas fechadas. Com o coração a mil, ela olha em volta, a primeira reação foi a de autopreservação, sua mão abre instintivamente a gaveta em busca de uma faca longa.

Logo percebe que na cozinha há rastros de algo negro no chão, como pegadas descalças, indo em direção ao quarto.

Começa a seguir com passos leves e cautela na direção a origem dos estranhos sons, que agora tornaram-se um mix de risos e choro incontroláveis, quase que histéricos.

Ao chegar ela vê uma jovem, a cabeça pendendo para frente e os longos cabelos negros. A jovem reclama de frio, enquanto ri e chora ao mesmo tempo. A faca é deixada de lado, enquanto as mãos puxam um edredom, agora cobrindo a jovem de pele clara e estranhamente marcada de algo sujo, negro.

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As palavras da mulher soavam tão longe, seria hipotermia? Mas como, estes dias estavam tão quentes. No canto dos olhos algo chama sua atenção, ela vê algo escrito na parede da cabeceira da cama, na mesma tonalidade em visgo negro.

A frase: - “Não pisque” !!!.

O telefone toca, ela pula de súbito da cama, ainda com a visão da mulher de cabelos e olhos cor de piche. 

12 - Desespero Em Dose Tripla

Ao telefone era o Theo, numa ambulância a julgar pelo ruído da sirene e das buzinas reclamando da velocidade e direção descuidada.

Ao falar com ele, Laura tentara entender o que ele estava tentando transmitir em meio ao desespero ela entendia bem.  Alguém que ele conhecia havia sido ferido e precisava de ajuda. 

Rapidamente ela se recompõe, trancando a estranha visão de minutos atrás no fundo de sua mente, e pede instantâneamente para falar com o socorrista lhe passa as instruções necessárias e avisa que ela o encontrará no hospital em alguns minutos.

Alguns minutos depois, Laura chega ao hospital. O socorrista avisa dos procedimentos executados até aquele momento com as duas vítimas. Ela passa rapidamente pelo Theo e avisa que vai ajudar da melhor forma possível.

Não demorou para concluir uma rápida avaliação dos dois pacientes, revelando que nenhum deles resistirá muito tempo sem intervenção cirúrgica imediata, e isso, ela não deixaria acontecer. 

Ao procurar o cirurgião de trauma responsável, Logo recebe a informação de que ele está em cirurgia, assim como os outros médicos de plantão, mais um daqueles acidentes na marginal Tietê enchera com muitos feridos. Até mesmo as demais salas destinadas à cirurgias estavam lotadas e liberá-las levaria tempo,  e isso era justamente o que as vítimas que acabaram de chegar não tinham… 

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Movida pelo desespero de uma possível perda para o homem que a salvara dias atrás, Laura bola um plano mirabolante. Olhando rapidamente ao redor, em busca de alternativas, ela logo lembra-se dos momentos de carência extrema a qual trabalhara no MSF. Agora sabia, o plano não era só mirabolante, também era insano.

Elevando a voz para que todos na sala prestassem atenção, ela informa ao chefe de enfermagem que vai assumir ambos os casos, apesar de não estar no quadro de médicos, pois, afastava-se desde a morte dos pais a mais de um ano, como era sabido por todos ali.

Ela começa a chamar pela equipe ao redor, chamando todos os que estiverem disponíveis, pede para que um deles pegue três kits cirúrgicos, e fechem a enfermaria, pois a partir daquele momento ela seria usada como uma sala cirúrgica, e, os enfermeiros e socorristas ali presentes seriam seus ajudantes durante o processo.

Apesar de nenhum deles ser formado em medicina, todos entenderam a excepcional urgência e se sentiram tocados pela confiança neles depositadas pela jovem médica. Jamais isso havia ocorrido, e muitos dos presentes apenas sonhavam em auxiliar em tais procedimentos.

A sala permaneceu uma correria insana, a Dra. Laura bradava instruções para as três cirúrgicas, e alternando entre elas operava os dois pacientes simultaneamente em dois traumas torácicos graves e um trauma grave num dos membros superiores, uma mão havia sido decepada. 

A equipe trabalhou arduamente, sincronizados como um relógio, todos esforçando-se ao máximo em procedimentos que demoraram horas para serem concluídos.

Em meio aos procedimentos, o cirurgião responsável pelo trauma naquele momento, apareceu, olhou, nada disse e saiu com a cara fechada.

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Não demorou muito o próprio Dr. Junqueira, responsável pela ala cirúrgica apareceu na sala. Seu olhar arguto trespassava a tudo e a todos, os enfermeiros e socorristas ficaram evidentemente incomodados, pois, tudo ali era totalmente fora do padrão. Não se operava fora da ala cirúrgica, enfermeiros do ambulatório e socorristas do SAMU não ajudavam em tais procedimentos, e acima de tudo, cada cirugia era acompanhada ao menos de dois médicos fora os anestesistas, três no caso de traumas torácicos. Ali eles estavam apenas com a Dra. Laura e nenhum residente, médico ou anestesista para auxiliá-la além dos enfermeiros e socorristas trabalhando em total sinergia em prol da vida. Muitos ali lembrar-se-iam daquele momento com orgulho e reverência, algo muito especial acontecera ali.

Por fim, graças ao auxílio de todos os envolvidos, todas as cirurgias correram bem, e os pacientes se recuperaram sem sequelas.

Ao falar com Theo e Dra. Catarina, Laura percebe uma evidente animosidade entre os familiares e seu salvador de noites atrás. Exausta e sem muita energia, vai até o diretor, que apresenta as informações aos pais de uma das vítimas, e a apresenta como funcionária do H.C. O que depois acabou por se tornar um convite oficial para assumir a ala cirúrgica do local.

13 - Anjos Chorosos

Conversando com o Theo, Laura revelou que viu, a visão da mulher, o riso, a gosma preta, o céu roxo, e por fim o Anjo Choroso no terraço do prédio em frente à janela da cozinha de seu apartamento.

Ele compartilhou a tradução de um texto em italiano, referente às estátuas:

Tradução do Italiano: Há muito tempo atrás, no século XVI, o jovem artista Itálo Lorrenzine teve um sonho: Os anjos caídos do senhor lhe disseram que queriam sua ajuda observar a humanidade e pagar por seus erros. Lorrenzine aceitou fazer-lhes corpos de pedra. Para cada anjo foi feito um corpo. Depois do trabalho pronto os anjos tentaram matar o homem, mas ele tinha lhes enganado, os anjos não podiam matar de fato, eles podiam apenas sugar o resto da vida da pessoa nesse tempo presente, a enviando para uma época passada. E os possuíam um sério problema relacionado a visão. Os anjos só podiam andar livremente quando não tinha nenhum ser olhando para eles. Caso contrário eles se transfiguravam em pedra, com a escultura que os abrigava. -------- Conjecturas da dr Sophia Os anjos podem ser os anjos caídos que vieram com lúcifer… mas eu nunca havia visto essa ramificação da lenda.

  Neste momento, a Dra. Catarina e logo percebe que ela conhece o Theo, e que ambos estavam envolvidos em algum tipo de investigação.

Em comum acordo, ambos recomendam que ela não voltasse ao seu loft, mas que fosse para outro lugar até que a estranha situação esteja resolvida. 

Catarina sugere que Laura vá ficar com ela, numa casa frequentada por outros que, entendem pelo que está passando com a estranha figura e a estátua que vista ao longe.

Prontamente aceitou a oferta, e logo foi levada a uma mansão, um pouco afastada do centro. Lá conheceu algumas figuras diferentes. O clima estava estranho, pois, todos estavam de luto, haveria uma cerimônia de despedida a ser realizada naquela noite.

Catarina apresentou-aa algumas pessoas, logo prontificou-se a ajudá-las,  e aceitou de bom grado a ajuda que me fora oferecida para “limpar” as interferências de seu Loft.

14 - Estranhos Relatos

02 Setembro por volta das 08:15

Na manhã do dia seguinte, acabei tendo a oportunidade de auxiliar o dono da mansão, que me pedira para fazer uma pequena cirurgia num de seus “clientes”. Não foi nada grave, embora demore um pouco para curar completamente a ferida tratada, tudo terminaria bem no estranho incidente.

A tarde e à noite, aproveitei para ler alguns documentos da biblioteca que me fora apresentada, alguns casos da instituição em que me encontrava, focada em assuntos estranhos, para dizer o mínimo. foquei naqueles últimos casos, pretendendo avançar no passado até estar familiarizada com todos os aspectos daquela estranha organização.

Após ler um dos casos, focados onde um tal de Hector esteve envolvido, fiquei embasbacada com tamanhas estranhezas, coisas indizíveis rondavam todos aqueles que se dispunham a olhar diretamente às sombras, e, não era raro que muitas vezes algo na sobram observasse em resposta.

Acredito agora em tais sombras, naquela noite esforcei-me para estudar o livro que me fora dado pelos antigos amigos de meus pais, naquela estranha loja de especiarias orientais. 

Não demorou muito para avançar algumas páginas e descobrir maravilhas que eu sequer posso imaginar o significado. Mas, as sombras também respondem, eu presenciei o Anjo Choroso a minha frente, as palavras da estranha mulher de olhos e cabelos cor de piche me vieram à mente: - Não pisque! 

Embora eu tenha tentado, não consegui por muito tempo, e, quando me dei por mim, correndo para longe tudo já havia sumido, quem sabe com a chegada de um dos colegas que trabalham e moram na mansão, quem sabe por intervenção de algo ou pura sorte, se é que existe sorte.

A noite tomou para si tudo em seus braços, me vejo agora com os olhos pesados pelo sono, preparando-me para dormir, embora a visão tenha sido noutro aposento, olho para os lados e procuro em meu novo quarto, buscando em vão encontrar algo que não quero encontrar. 

Que o sono profundo me revele maravilhas e que o despertar me mostre um mundo onde as sombras dão lugar à luz e ao calor do sol, e que estes, iluminem meu espírito e aqueçam meu coração.

NOTAS dos Antigos Arquivos da sede.

“Arquivo antigo contendo 18 meses de investigação: 

Hector Rosa Magalhães, 18 meses atrás que o Elias era um serial killer, contando que o que acreditava por serem fidizois, deuses antes dos deuses em formato de cobras, antigos e dotados de energias sobrenaturais. Um gato que o acompanhava (Bave), que se transmutava em uma pessoa, não emitia nenhum som quando estava nesta forma.

Ao que parece houve um embate entre ele e o Elias, e seu filho em oroborus de São Paulo, uma comunidade mágica chamada de Sede da 7. 

Aparentemente o filho terminou morto também, depois de um embate com criaturas humanóides em formatos de cobras, o nome é rasurado a lápis: raça fidi. 

Muitos membros da Sedi 7 acabaram morrendo, incluindo o Mathias namorado da Dra Catarina, membros Sede enquanto a mesma situava-se na Liberdade.

Hector e Filomena continuaram sendo tratados na nova Sede da 7.

Arthur: alegava que os humanóides Fidi ocupavam um lugar chamado O Lago, dizendo que estava indo em direção ao dito Lago, como se fosse outro plano, para ir até lá exterminar o restante da comunidade oroborus.”

15 - O Homem Fatiado

02 setembro - 10:32 da manhã

O Dr. Gabriel, aparentemente o dono da mansão a qual mansão a qual Lara se encontra solicita sua assistência para tratar de um homem, certamente um de seus contatos.

O homem de aspecto robusto, ares mais rústicos e de pouca sofisticação encarava com um certo descaso seus ferimentos.

Apesar de terem dito que eram facadas, algo nas feridas aparentavam outros motivos para Laura, que nada comentou a respeito. Tinha ali o objetivo apenas de suturar os ferimentos, deixando o mínimo possível de sequelas no homenzarrão a sua frente.

Gabriel observava-a atentamente, seja por curiosidade ou por outros motivos, cada uma das suturas feitas, uma pequena cirurgia fez-se necessária, de modo que o homem cobrasse os movimentos do braço.

Sem muitas opções, uma vez que um hospital evidentemente estava fora de cogitação, então, uma anestesia local, e mãos à obra. Pouco mais de uma hora depois terminara o trabalho a qual havia sido acionada. Tão habilmente que o homem já voltara a mexer os dedos sem maiores problemas. A recuperação dar-se-ia com o tempo e seria completa, sem sequelas.  

Ao retornar para a mansão, pouco conversou com Gabriel, que a fitava curioso, como se sonda-se algo em sua mente. Focou sua mente noutros assuntos, pois, sondar a mente de desconhecidos certamente estava longe de suas atuais atribuições enquanto estivesse prestando serviços médicos àquelas pessoas que a acolheram num momento de dificuldade.

O mundo é bem mais tranquilo quando evitamos perguntas em demasia. Se quer realmente respostas, atente às atitudes das pessoas, suas palavras raramente contam muito sobre elas mesmas, pensara durante o tempo que ficara a serviço pela Sede, como Catarina os havia chamado.

Em sua mente um pensamento surgiu, levando-a a um sorriso rápido, quase imperceptível: Será que seus pais faziam algo parecido ? Logo o som de uma buzina ancorou-a novamente nesta realidade, cujas podem jamais estarem disponíveis.

16 - Aprendendo Segredos Antigos

02 setembro - 12:26 da tarde

Após retornar à mansão, Lara almoça calmamente, já havia lido os relatórios antigos pela manhã e feito uma cirugia. Dr. Gabriel já havia comentado que não haveria necessidade dela sair à tarde. 

Sentindo-se bem disposta após o almoço, decidiu empenhar-se no estudo do antigo livro que lhe havia sido presenteado pelos amigos chineses.

Ao ler o livro, sente-se estranha, como se o que fosse lido não apenas entra-se em sua mente, mas também afetava sua mente e espírito. É difícil dizer quão estranho é a sensação de algo sendo somado à sua essência enquanto gradativamente algo de igual valor se esvai de nós proporcionalmente.

O livro evidentemente descrevia fórmulas alquímicas, contendo uma grande variação de feitiços. Ela segue a leitura metodicamente, seguindo a orientação de seus amigos. Enquanto a tarde e a noite avançam, toma notas e por acredita ter aprendido duas fórmulas alquímicas ali descritas.

A noite avança, o silêncio na mansão somada ao ruído dos insetos lá fora, lembram-na de que o dia fora longo, muito havia sido absorvido, seja dos antigos casos ou mesmo a tarde, do estranho e antigo livro.

Decide por recolher-se, agradece em suas preces pelo dia que tivera. Guarda com reverência o livro em sua mala, sorrindo enquanto lembra da conversa que tivera com seus antigos donos.

17 - O Ritual Do Tempo

03 de Setembro por volta das 08:00 horas

Acordar pela segunda vez seguida forma de sua casa era estranho, poucos dias haviam se passado desde que voltara ao Brasil, mas dormir ali era diferente de um hostel, acampamento ou algo do gênero. Não era ruim, mas estava muito longe de ser agradável.

Após tomar um banho rápido, veste-se com calma e sai de seu quarto em busca de algo para comer. Logo percebe que há algo estranho, não havia ninguém à vista, porém, um estranho sentimento de que algo estava errado faz com seus ossos gelem.

Aguça seus sentidos, como se estivesse perseguida por algo, nada encontra, então ouve o grito, a voz conhecida de João no jardim. 

Sem temor pela própria vida, avança porta afora seguindo os gritos e logo encontra João, caído ao chão. Para o horror de Laura, as pernas de João estavam transformando-se em pedra diante de seus olhos.

Aflita pela situação do colega, ela conversa com ele, e para seu espanto, descobre que o homem sofrera um ataque de um Anjo Choroso, mas, por algum motivo, o ataque fora interrompido, mas o efeito ainda continuara a matar o homem de forma lenta. 

A cabeça de Lara funcionava freneticamente, uma ideia surgiu-lhe, como que por impulso, ligar na loja de especiarias de seu amigos chineses. 

Ao conversar com eles, é informada que um dos ensinamentos do livro poderia interromper temporariamente os efeitos da passagem do tempo em João. Agindo quase que de forma autômata vai nos escritórios que lhe haviam sido apresentados e começa a recolher os instrumentos necessários para realizar o que parecia ser um ritual.

 Sua amiga informa sobre as estátuas, sobre devolver a energia de volta à ela pode ser a chave para anular o que as mantém afetando as pessoas. 

Não demorou mais do que alguns minutos e terminara o ritual da forma mais precisa possível e volta para o jardim para executá-lo.

Desesperada e com receio de não ter êxito e morrer no processo, ela se concentra em passar para os envolvidos as informações que descobrira e suas hipóteses antes de seguir adiante com o ritual em João.

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E-mails enviados para Joaquim e Dra. Catarina às 10:13 da manhã

“Pessoa, não sei se lhe ajudará, mas, encontrei uma situação que uma pessoa está se transformando em pedra após terem visto a estátua de um anjo choroso.

Eu tentarei executar um ritual de um livro que tenho lido, com a intenção de parar o tempo passado num corpo vivo, deixando-o em êxtase temporal por algumas horas até que a questão das estátuas sejam resolvidas.

Tenho três sugestões para resolver o problema das estátuas, duas envolvem devolver à ela a energia que está emanando, usando-a contra ela e transformando-a novamente em pedra “inativa”.

  • A primeira consiste em colocar uma lágrima de pedra que retirei (um pequeno grão), dos olhos do amigo afetado e colocando no vão dos olhos do anjo.

  • A segunda é colocar espelhos em volta da estátua, de forma que ela se veja refletida e a energia volte para ela mesma.

  • A terceira, e mais arriscada, é destruir as estátuas. Mas temo que isso venha a libertar os Anjos caídos que Lorenzini conseguiu prender com sucesso.

Preciso começar o ritual agora, pois, o amigo está piorando e se afetar o sistema nervoso ele pode morrer antes de eu concluir. 

Se der certo, eu enviarei outro email.

Bjos Dra. Laura.”

João, emocionado pelo momento e receoso de que sua vida acabasse nos próximos instantes, pede a Laura que procure sua filha para dizer a ela o quanto o pai a ama e cuidar para que seu testamento seja executado e ela não passe por necessidades com sua ausência.

Emocionada, Laura concorda com o pedido, e foca-se no ritual, pois sabe, que a tentativa de ajudá-lo, e da necessidade dele não resistir, para que o efeito seja maior, aumentando as chances de sucesso. 

Por um tempo que parecia ser uma eternidade, palavras são ditas, foca em sua fé conforme lhe havia sido ensinado, e percebe, que uma crisálida começa a se formar iniciando-se pelos pés de João, seguindo para o tronco até cobri-lo por completo. O ritual estava completo, havia dado certo e duraria por várias horas.

Durante o ritual, uma memória lhe sobreveio em sua mente, algo que havia se perdido ao longo de tantos anos que a separavam da Laura, ainda na tenra infância. Ela lembrou-se de ter visto sua mãe executando o mesmo ritual, embora não lembrava quem era o alvo. Esta visão encheu-a de emoção e nostalgia.

Não fora cansaço ou qualquer outra coisa, ela sentia que uma parte importante de si mesma havia se perdido durante o ritual, não se importava, desde que João sobrevivesse o custo de suas escolhas enquanto médica lhe preparava para isso.

Agora, precisava correr para resolver o problema, liberando João da estranha maldição que o afetara. Uma estranha marca em sua mão, mudava de minuto em minuto, num aviso que nada daquilo duraria para sempre.

Mais uma vez voltou a um dos computadores para avisar os amigos sobre o que aconteceu e seus planos para as próximas horas.

E-mails enviados para Joaquim e Dra. Catarina às 10:30 da manhã

“Pessoa, o ritual deu certo, a crisálida durará 5 horas, mantendo com eficácia o êxtase temporal.

Consegui confirmar que o Theo, que sabe mais sobre o que está acontecendo foi preso e já foi liberado, vou contatá-lo para seguirmos juntos até o final disso.

Conversei com a Arqueóloga Laura Fey esposa da Dra. Sofia (que está desaparecida desde a mostra das estátuas ontem) , e, combinei com ela de me encontrar no Municipal pouco antes das 13:00, ela nos garantirá acesso às estátuas, para fazermos os procedimentos sugeridos no email acima. 

Tentarei contatar o Theo e o Joaquim para nos encontra-mos lá, e seguirmos com os planos acima.

Bjos Dra. Laura.”

Após enviar o e-mail, Laura pega tudo o que precisa e dirigi-se ao encontro da Dra. Fey. Com a mente e o coração na estranha tarefa de enfrentar os estranhos e mortais Anjos Chorosos.

18 - Encontros Desesperados

Laura avança com seu Fuscão antigo elas avenidas de Sampa, tem pressa na medida, se conhece e sabe que não é das melhores motoristas, precisa ter cuidado.

O encontro com a Dra. Fey pode ser a chave para resolver a questão dos Anjos Chorosos, salvar João e mitigar a chance de mais alguém se ferir.

Em seu íntimo, tem apenas impressões do que pode ser a solução para o estranho caso, tenta juntar as peças entre as paradas de um semáforo ou outro.  

Algo neste dia lhe soa tão estranho, os encontros, eventos, mesmo o clima lhe parece estranho, deslocado, embora ela não saiba o motivo. Reconhece que este momento não é para  devaneios, concentra-se do agora, pensando: - Faça de conta que é só uma cirurgia de peito aberto, cuidado com o que corta, não esqueça de tirar e contar as gazes, confira tudo ao menos três vezes, e sobretudo antes de cortar tenha certeza de que o paciente está sedado… Não tem como errar garota, vai que é sua !

Ao chegar no endereço que lhe fora passado como ponto de encontro, um restaurante bacana de Sampa, Laura se vê procurando alguém que sequer tem ideia de como é, ou mesmo tenham se programado para acenarem, as roupas que estão vestindo, esqueceu o básico em meio ao desespero. Lhe restava apenas perguntar ao responsável pela alocação das mesas se havia alguém ali na esperando-a.

O responsável logo indica uma jovem e bela mulher que esperara à porta do restaurante. Instantes depois já estamos numa das mesas, conversamos rapidamente. Fey já havia preparado os espelhos como eu havia pedido numa rápida conversa ao telefone no início do dia. Agora nos restava ir até o Teatro Municipal, fazer o possível para tentar eliminar a ameaça dos Anjos Chorosos.

Ao saírem do restaurante, Laura prefere ir no carro da jovem, um homem tenta seguí-las numa saveiro preta. A Dra. Fey, consegue despistá-lo. E explica que o homem, um investigador, a está seguindo por um tempo devido à sua esposa, a Dra. Sophia em arqueologia, que estava desaparecida havia mais de um dia, algo relacionando aos enigmáticos anjos. 

19 - Chegada Ao Museu

Quando as duas chegaram ao Teatro Municipal, a Dra. Fey apresentou Laura como uma assistente temporária, forçando a entrada para a área de estocagem, onde encontrariam as estátuas.

Era um lugar escuro, repleto de caixas, baús e toda a sorte de coisas antigas empacotadas. Laura que estava cismada com tudo, distraiu-se, afastando-se do grupo reforçado por um dos seguranças do Teatro. 

Reencontram-se depois de alguns instantes, e seguem para o que parece um tipo de cofre, onde estavam armazenadas as estátuas dos Anjos.

Os espelhos que ela havia pedido estavam lá, e logo começaram a dispô-los conta a entrada do cofre. Quando passos e vozes de mais alguém entrando no deposito foram ouvidos à distância.

20 - Felizes Encontros

A dúvida que sentira nas últimas horas acerca de alguém ter recebido seus e-mails desesperados fora resolvida. Vindo pelo corredor e passando por entre as caixas, vinha Joaquim, um dos homens que a resgatara do motorista de Uber e que estava envolvido com esta história dos Anjos e mais um Guarda do Teatro.

Agora estávamos em quatro ali, dispondo espelhos rapidamente, na tentativa de bloquear a saída dos Anjos do cofre. 

Um ar soturno no local assustava os guardas, ruídos e coisas estranhas, um sentimento estranho pairava no estranho depósito, e eles percebiam isso e sabiamente temiam.

21 - Mensagens Do Passado

Joaquim e Laura começam a contar rapidamente sobre suas ideias para anular o poder dos Anjos, os guardas a tudo ouviam e começavam à forçar a saída do local, levando-nos consigo.

A Dra. Fey consegue forçar a situação usado seu cargo e dando carteiradas nos guardas para permanecerem ali, e eles permanecem ali, ajudando a organizar os espelhos.

Joaquim nos mostra um Diário, contendo informações importantes acerca das estátuas, um trecho nos chama a atenção, a ordem a qual os Anjos haviam caído do Paraíso. 

A Dra. Fey ao ouvir sobre o diário, aproxima-se curiosa, e logo a curiosidade torna-se raiva, e a raiva transmuta-se em fúria. Ela começa a indagar, pressionar e por fim acusar Joaquim de ter roubado o diário, que reconhece como sendo o de seu pai.

Joaquim que tentara inútilmente argumentar, desiste e assume que o havia roubado, na melhor das intenções, e devolve o velho diário à sua herdeira por direito.

22 - As Estátuas Da Morte

Nos posicionamos para começar da melhor forma possível para conter as estátuas. As lágrimas que eu havia pego de João, enquanto os efeitos dele sendo transformado em pedra, essa era a alternativa que eu acreditava ser a chave para resolver. 

Haviam também os espelhos, como alternativa secundária, e por último mas não menos improvável, recolocar as estátuas umas de frente para outras, de forma que sempre estivessem umas olhando as outras, na vã esperança de que elas anulassem umas às outras.

Como se as estátuas percebessem o que estava acontecendo, elas revidaram. Ruídos estranhos vindos de dentro do cofre. As luzes começaram a oscilar e para o nosso completo desespero logo apagaram.

Tudo começou à acontecer ao mesmo tempo, as luzes apagaram, os Anjos começaram a se mover toda vez que o fraco foco de luz de nossos celulares ou das lanternas dos guardas deixava de fitá-los. 

Laura já estava quase dentro do cofre, ia começar a usar as lágrimas quanto tudo isso aconteceu. Os guardas começaram a afastarem-se amedrontados, uma vez que percebiam que nada ali era natural.

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Um novo som surgiu dentro do cofre, aumentando ainda mais a tensão do momento, espelhos, espelhos sendo quebrados, um a um. Agora a hipótese dos espelhos caíra por terra e nos restavam menos chances de cancelar a estranha maldição.

Laura e Joaquim fecharam rapidamente a porta do cofre, numa vã tentativa de prender os agora furiosos Anjos. Instantes depois, sons de pesadas e potentes pancadas na porta de metal do cofre, que começara a vergar com a força dos impactos.

Os guardas que já estavam assustados logo entram num desespero frenético e saem correndo para fora do local.

Um deles, o chefe de segurança, permanece, mas ouvir nossa breve explicação sobre o que estava acontecendo é demasiadamente bizarro para ele, e logo começa a afastar-se rumo à saída do porão, levando consigo a única lanterna do local.

Não foi possível argumentar muito, nem mesmo pedir a lanterna, instantes depois, para o horror de Laura, Joaquim e Dra. Fey, o grito do chefe de segurança é ouvido a poucos metros de distância de onde estávamos, assim como o ruído da lanterna caindo ao chão e seu brilho, assim como a vida do Guarda, desaparecendo da face da Terra rumo ao vazio.

A Dra. Fey percebeu que havia algo chegando, e prontamente olhou para trás, e o desespero dos três desventurados que ali estavam, outra estátua apareceu. Estava a centímetros de alcançar tocá-la. Se não tivesse virado naquele instante, teria sido transformada em pedra.

Laura e Joaquim bolam uma estratégia para abrir a porta, e usar as lágrimas, com auxílio dos dois espelhos que ainda estão intactos.  

Munidos agora apenas de seus celulares, Laura e Joaquim abrem a porta do cofre, mesmo com os ruídos das fortes pancadas vindas de seu interior. Um dos Anjos, estava diante da porta, a marca de suas poderosas mãos delineadas no metal da porta. 

Laura se aproxima tentando utilizar a lágrima, e, muitas coisas acontecem. A Dra. Fey grita assustada, o Anjo cuja luz de seu celular iluminava movia-se ainda mais em sua direção, num curto piscar de seus olhos cansados por manterem-se abertos por tempo demais.

O mesmo acontece com Laura, quando estava prestes a devolver às lágrimas aos olhos do Anjo, fazendo com que prove um pouco de seu próprio poder.

Ela sente que algo invadira seu espaço, sente uma dor no braço quando o Anjo a agarrará-a, e seu braço estava agora envolvido em pedra pelas mãos poderosas num aperto mortal.

Ela ainda meio tonta Laura, consegue usar as lágrimas no Anjo, que pára de pressionar seu braço.  Laura pede a Joaquim que pegue as lágrimas que provavelmente estejam rolando na face do Guarda. Joaquim consegue pegá-las e avança para dentro do cofre, na tentativa de usar naquele acreditamos ter sido o primeiro Anjo.

Joaquim consegue usar a lágrima em um dos anjos. Uma luz intensa sai de seus olhos e passa pelo teto destruindo tudo em seu caminho.

Laura, ainda abraçada pelo Anjo, sente que algo se aproxima dela, um Anjo está diante de si, em laçada pelo forte abraço de pedra se vê incapaz de escapar, seus olhos começam à lacrimejar, ela sabia que estava numa contagem regressiva para piscar e não havia como escapar.

Ao seu redor, o ruído do teto desabando, o grito da Dra. Fey vindo de fora do cofre foram as últimas coisas que ouvira. Uma dor insuportável nos olhos, secos por permanecerem tempo demais abertos, depois, uma dor que lhe invade o corpo e nada mais, apenas uma sombra invadindo-lhe a essência e levando-a para o vazio …

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23 - Céu Em Chamas

Laura se vê despertando, confusa. De pé num campo ensolarado na orla de uma floresta tropical. Muitos homens fardados correndo em sua direção, fugindo de algo vindo dos céus.

Ao olhar para cima, ela percebe um avião de combate, um modelo antigo pelo pouco que ela conhece, com a bandeira dos EUA voando em posição de ataque na direção de todos ali, incluindo ela. Algo é lançado pelo avião, logo a orla da floresta e o campo explode em chamas. 

Os homens a agarram-na bruscamente, uma pancada na parte posterior da cabeça, a dor a leva novamente para o mundo de sombras e do vazio.

24 - Milha Verde

Laura desperta, para a sua estranheza ainda estava tentando se adequar à bizarra situação a qual se encontrava.

Não estava mais em 2019, mas sim em 1972 num Vietnã em plena guerra contra os Estados Unidos da América. Os soldados vietnamitas que a prenderam tentaram em vão interrogá-la, mas a barreira de idioma era praticamente intransponível.

Dias se passaram, sentia-se num filme de Papillon de 1973, abandonada ao degredo da existência humana. Não haviam ocorrido torturas físicas ainda, porém, seu psicológico já estava demonstrando os profundos efeitos da privação de comida, água, sol e sono a qual sofria de seus carcereiros.

Os vietnamitas eram eficientes em criar um ambiente inóspito, afetando a mente, desgastando a força de vontade de seus inimigos. Não fora diferente para Laura, que desolada pelas perdas inimagináveis que sofrera, perdera o conforto, o ambiente, os amigos, a liberdade e mesmo o seu tempo. 

Laura sentia que já havia passado de seu limite, estava prestes à desistir, morrer parecia algo mais simples e infinitamente menos doloroso do que continuar sofrendo aquelas degradações e ainda receando outras ainda muito piores que sentia que estavam por vir.

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24 - Encontros Fortuitos

Laura abriu os olhos, cansada demais para gastar energia falando com os guardas, que nada entendiam do que ela falava. Apenas sorriam em desafio, cientes de que a força de vontade se esvaia a cada dia, e era uma questão de tempo de obterem os segredos da estranha espiã que encontravam. 

Diante dela, ao invés de um guarda, havia um homem alto, com roupas desleixadas na sua opinião, mas bem ajustadas ao seu tamanho. Estranhamente usava um chapéu de cowboy.

Era a primeira vez que ouvira o português além dela mesma, espantada esforçou-se para sentar-se ao chão encostando suas costas na parede suja. Fitava o homem com curiosidade renovada, ao menos agora, seus captores poderiam conversar com ela, pensou.

Diferentemente do que ela havia pensado o homem estava ali curioso sobre o que ela estava fazendo ali, deu a entender que sabia que ela era de outro tempo. 

Logo a curiosidade transformou-se em esperança, como homem sabia tanto, logo lembrou-se das estranhas coisas que havia visto nos dias que se sucederam à chegada a Sede 7, nos relatórios estranhos e mesmo, dos Anjos, da Mulher de Cabelos de Piche, um turbilhão de pensamentos em sua mente naquele momento.

O estranho homem lhe oferece uma escolha, ir com ele e contar sobre os estranhos infortúnios que a levaram até ali, ou, permanecer presa e provavelmente ser executada por não cooperar com seus carcereiros. Não era uma escolha difícil afinal.

25 - Fuga

O homem fica satisfeito com a escolha de Laura em fugir com ele e revelar sua estranha história. Ele oferece algo para ela beber, num estranho frasco, ela sente o calor percorrer-lhe o corpo e suas forças se renovando, eliminando quase que por completo os dias de sofrimento e privação de alimentos e sono.

Ambos esgueiram-se para fora da prisão, o homem tinha muita habilidade em avançara e eliminar seus alvos sem ser detectado. Laura o seguia com o máximo de cuidado possível, para não ser vista ou atrapalhá-lo em sua estratégia.

Horas depois, já estavam afastando-se da floresta em que a prisão situava-se. Os dias andando na floresta pareciam intermináveis. Vez por outra ambos percebiam que estavam sendo caçados, mas, o estranho cowboy que alegava chamar-se Karmandian conseguia despistar os rastreadores inimigos com muita facilidade, levando-nos por fim à Saigon em segurança.

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26 - Incipit Vita Nova

Em algum lugar na NY de 1972

Quase um mês depois de sair da prisão, Laura já sentia-se menos alienígena àquela nova década. Um mundo totalmente novo para ela, pois, os livros não faziam juz para descrever aquele período estranha da história. 

Não voltaram para o Brasil, não poderia, segundo Karmandian, agora sua nova vida dar-se-ia na Sede 7 de NY, e praticamente nada de seu passado poderia ser revelado às demais pessoas daquela época.

Alguns meses depois, ela e seus novos amigos descobrem o ritual necessário para mandá-la de volta para São Paulo em 2019, porém, o custo seria alto demais, e, possivelmente ela não voltaria em condições de ajudar seu amigo Joaquim a derrotar as estátuas dos Anjos Chorosos.

Laura pondera sobre o que já havia vivido em sua época, o que havia perdido e também o que poderia oferecer de ajuda àquelas pessoas da Sede 7 de NY. Voltar e talvez deixar de ser quem é e viver na cama o resto de seus muitos dias, ou permanecer fora de seu tempo. 

Decidiu seguir permanecer em 1972, ajudando com seu trabalho à salvar tantas vidas forem possíveis, pois, estava, em última análise 50 anos a frente de tecnologias e conhecimentos médicos, poderia treinar e aperfeiçoar técnicas que ainda sequer haviam sido elaboradas, melhorando a expectativa de vida daqueles que enfrentavam dia-a-dia o desconhecido e o horrendo mundo das sombras que a maioria das pessoas sequer poderia imaginar existir.

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27 - Retorno

São Paulo - 12 junho de 1993 

Laura, volta ao Brasil em depois de muitos anos fora. Decidira passar os próximos anos de sua vida ouvindo seu idioma natal.

Sua vida mudou de forma abrupta, o esposo havia morrido a poucos meses durante um ataque à Sede de NY, sua família aparentemente era o alvo, e todos teriam morrido se não fosse pelo sacrifício de Thomas, o amado executara um potente ritual para garantir que todos os membros pudessem escapar da gigantesca criatura e das destruição do edifício. 

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28 - Velho Amigo

14 de Setembro de 2019

Laura chega na mansão da Sede 7, reencontra João ainda afetado pela crisálida, e aguarda, ansiosa o tempo necessário que ela se desfaça sozinha. O amigo pode precisar de ajuda.

João acorda, ainda aturdido com o que havia lhe acontecido, conseguia sentir as pernas, o sol brilhava alto no céu. Diante dela uma mulher idosa, de olhos meigos e atentos estava ajoelhada ao seu lado, checando seu estado. 

  • Olá querido João, diz a estranha mulher com um sorriso cordial.

O homenzarrão fita mulher, e, seus olhos arregalam-se quando a reconhece, confuso, se desespera.

  • Eu, eu, quanto tempo, meu Deus, minha filha …

  • Calma, responde a mulher, só passaram algumas horas para você, tudo vai ficar bem.

  • Mas você, você envelheceu, como, como isso aconteceu? O homem balbucia tentando compreender.

  • Não tenho muito tempo João, preciso lhe pedir um grande favor, algo similar ao que você havia pedido antes do ritual, lembra-se ?

  • João a encara, o olhar confuso é substituído por um olhar de tristeza e compreensão.

Laura leva o amigo para dentro da mansão e ambos conversam por pouco mais de uma hora, depois ele despendem-se num forte abraço.

João olha esta versão diferente da Laura que conhecia, maravilhado com as estranhas histórias, o estranho baú que ajudou a amiga descarregar de seu carro tinha um destino, e cabia a ele entregar à pessoa certa como prometera.

29 - Cartas Ao Vento

Em algum momento de 2019

Estava escuro,  fazia tempo que João não viajava tanto, jamais imaginou conhecer um lugar tão isolado. Havia saído das estradas pavimentadas à mais de cinco horas. Não fazia ideia de tantas estradinhas na mata atlântica entre o litoral e a capital de São Paulo.

Viu o estranho trailer ao estilo retrô e logo o reconheceu da foto que recebera, havia encontrado o que estava procurando desde que saíra da estranha crisálida.

Ao sair de sua caminhonete, olhou em volta, pressentia que alguém o estava vigiando, à espreita, pensou várias vezes se estava ou não em risco, mas lembrou-se da promessa, e que morreria antes de quebrá-la.

Não havia ninguém no local, mas seguiu às instruções à risca, usando a chave reserva que recebera, permaneceu no local apenas o necessário, deixando o estranho baú no centro da sala.

Entrou em seu carro e voltou para São Paulo, a lembrança do que ocorrera em setembro lhe sobreveio, assim como a saudade. Passou por uma pedra grande que sacolejou a caminhonete, focou-se no momento e dirigiu sem parar até estar de volta para casa para abraçar a filha.

Uma lágrima e um sorriso lhe veio à face, começou assoviar baixinho a música Naima do John Coltrane, arfou o peito soltando com alívio o ar e o peso de seu peito, sentiu-se contente e com a sensação de uma promessa cumprida.

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30 - Sacrifício

14 de Setembro de 2019 - 15:34 - São Paulo - Teatro Municipal 

Laura sabia que teria que se apressar, não sabia se o amigo Joaquim e a Dra Fey conseguiriam sair do Teatro Municipal. Chegou em tempo de ver o desenrolar dos eventos que a levaram para tão longe.

Uma luz saindo pelo teto do Municipal, as lembranças vieram-lhe à mente. Forçou-se a concentrar-se em seu objetivo, estava ali por um motivo, e esperava por aquela chance a muitos anos.

Avançou rapidamente pela lateral do prédio, o todos corriam para a frente do prédio, ela tivera tempo de estudar minuciosamente as plantas do local, ciente dos acesso mais simples e elevadores de serviço.

Havia comprado meses antes algumas senhas e cartões de acesso, nada muito sofisticado, apenas o necessário para entrar sem ser vista, acessar o subsolo da forma que precisava.

Encontrara Joaquim e a Dra. Fey desacordados, próximos a uma das saídas. Ela e Matthew, um de seus muito e antigos contatos, conseguiram tirá-los do subsolo antes dele desabar.

A Dra Fey estava ferida, mas não era grave, já Joaquim estava em estado crítico e precisava de ao menos duas cirurgias imediatas. Mas Laura, se preparar por tempo suficiente para tal, havia usado seus contatos para descobrir os tipo sanguíneos dos dois, e prepara uma clínica e deixara uma equipe de apoio à postos.

Fey foi transferida para um hospital no dia seguinte, enquanto Joaquim permaneceu tempo até estar fora de perigo. Porém, permanecia em coma, fora transferido para o Hospital da Clínicas.

24 de setembro - 2019 - São Paulo - Hospital das Clínicas 

Joaquim acorda depois de dez dias, já faziam três que estava internado naquele hospital. Ela aproveita para conversar um pouco com ele, que aparenta estar bem, porém ainda desorientado.

Não havia muito tempo, Laura tinha o que fazer ele ainda não havia se recuperado por completo, um sono reparador poderia auxiliá-lo.

Pouco mais de uma hora depois, Laura levanta-se devagar, estivera muito tempo ao lado do leito do amigo, agora, chegara o momento de ir embora. Deixara um bilhete na cabeceira de sua cama, com seus votos de uma vida longa e boa.

Olhou pela última vez para o amigo que pouco conhecera enquanto jovem, porém acompanhara quase toda a vida dele em segredo e aprendeu a apreciá-lo por sua ousadia.

Afastou gentilmente do quarto, os filhos dele estavam subindo para visitá-lo. Ela sabia demoraria um bom tempo para acordar novamente, mas sabia que ele acordaria bem.

FIM

Laura pressionava novamente o botão do dispositivo na lateral de seu leito, a morfina já fazia efeito, e a dor intensa diminui, ela volta a pensar com mais clareza agora.

O celular toca, ela se esforça para alcançá-lo, ao ver o nome percebe a recompensa de ter se esforçado para ler a curta mensagem.

  • Dra. Laura, missão cumprida, baú entregue conforme indicado.  O local estava limpo e evidentemente em uso. Acho que havia alguém por lá. P.S. Mais uma vez, obrigado ! - João.

Inspirou o ar com dificuldade, a dor sumira, com um sorriso olhou para a linha do horizonte, para ela, naquele momento o entardecer de São Paulo jamais lhe parecera tão belo e sereno, uma voz ao seu lado a confortara. Lembrou-se mais uma vez dos mais importantes momentos de sua vida com contentamento e expirou de seus pulmões pela última vez em sua vida …