Berlim - 1966

Joachim é o caçula da família Wolf. Seu irmão mais velho, Otto (59 anos), mora com os pais de Joachim em Blumenau, onde cuidam de um açougue.

Aos 21 anos, Joachim se mudou para São Paulo para trabalhar em um frigorífico. Com o passar dos anos, ele fez amigos na maior cidade do país e acabou se envo## Descrição física para os jogadores

Aos 25 anos, Joachim se casou com Paola, com quem teve um filho, Matthias (21 anos).

Os negócios ilícitos nos quais Joachim estava envolvido exigiam cada vez mais seu tempo, o que gerou um afastamento da família. Paola e Joachim se separaram em 2003, quando Matthias tinha apenas 6 anos.

Desde então, Joachim encontrou muitas dificuldades para separar a família do trabalho, fazendo com que sua relação com a esposa e o filho se resumisse a um depósito de pensão no fim do mês.

No seu aniversário de 50 anos, o alemão decidiu abrir um bar com o nome da sua cidade natal. Esse bar, até hoje, é sua principal fonte de sustento.

Enquanto selecionava os funcionários de seu bar, um jovem garoto chamou sua atenção. Theo tinha apenas 18 anos e era cego. Ele procurava uma vaga de barman, o que deixou Joachim receoso. Porém, Theo mandou muito bem no teste e mostrou capacidade para superar os desafios da falta de visão.

Theo se tornou gerente do bar e trabalhou duro desde sempre, ganhando a amizade de Joachim e de toda a equipe, e chamando atenção pelo seu alto carisma.

Em 2018, o Bar Berlim quase fechou. Joachim tinha uma dívida que não conseguiria pagar e, por isso, teria que fechar o estabelecimento. No entanto, ao anunciar o fim das atividades para seus funcionários, Theo pegou o dinheiro que havia juntado e pagou a dívida de Joachim, que então deu ao garoto 15% da propriedade do local, tornando-se sócios.

Naquele momento, o velho alemão viu uma chance de finalmente acertar com alguém na vida. Ele se aproximou ainda mais de Theo, um garoto em quem enxerga imenso potencial e trata com muito carinho.

Joachim ainda não tem coragem de se reaproximar de seu filho, mas vê no sócio uma oportunidade de se tornar uma pessoa melhor.

Diários

KAPITEL 1

In der Not Frisst der Teufel Fliegen

Quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Matthias,

Meu dia começou como sempre. Acordei em um velho sofá, ao lado de uma garrafa do whisky mais barato que encontrei nas geladeiras do Berlim. A cada dia que passa, o simples ato de levantar e iniciar mais um ciclo se torna mais doloroso. Seja pela dor na coluna, seja pela visão turva, acordar nunca fica mais fácil.

Enquanto tomava meu saudável café da manhã — restos de Eisbein do dia anterior —, precisei fazer algumas ligações para reabastecer nosso estoque para o mês de novembro. Depois disso, me pus a ler um livro que adorava quando tinha a sua idade: O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald. Não pude deixar de notar uma frase que me fez lembrar de você:

“Mas tudo passava agora demasiado depressa diante de teus olhos turvos, e ele sentiu que perdera para sempre uma parte de tudo aquilo. - A parte mais fresca e melhor.”

Bom, já estava na hora de ir ao bar. Precisava abrir tudo, limpar o necessário e acertar algumas contas. Mas aquela passagem não saiu mais da minha cabeça. Acho que nunca vai sair, na verdade.

Ao longo do dia, a chapa do Zé Maria estragou, precisei comprar um novo fogão para o bar e, para minha surpresa, recebi uma carta. Nela, havia um trecho do livro favorito de sua mãe, Alice no País das Maravilhas, justamente o encontro de Alice com o Gato de Cheshire. Sabe, se você tivesse nascido menina, seu nome certamente seria Alice.

Espero que tudo corra bem em sua vida, meu filho.

Eu te amo.

  • Papai.

KAPITEL 2

Der Fisch stinkt vom Kopf her

Data: 31 de Outubro de 2019 – Quarta-feira

Em um local escuro, sem teto, sem chão, sem paredes e sem limites, havia apenas uma única mesa de inox com dois bancos dispostos frente a frente. Em um dos bancos, estava Joachim; do outro, uma figura irreconhecível conhecida apenas como “O Lobo”.

A tensão pairava no ar quando o diálogo se iniciou:

Joachim:
“Então é isso? Ele está mesmo morto, não é? Eu sabia que ia dar errado. Eu sabia que causaria isso. Tudo que toco morre, tudo que toco eu destruo.”

O Lobo:
“É claro que está. Você viu, aquele tentáculo imenso o acertou em cheio, assim como explodiu Zé Maria. Estão todos morrendo, Joachim. Estão todos morrendo por sua culpa, seu velho patético.”

Joachim:
“EU NÃO PUDE IMPEDIR. VOCÊ SABE BEM QUE EU NÃO PUDE.”

O Lobo:
“Você tem certeza, Joachim? Vamos nos lembrar… Como chegamos até aqui?”

Joachim, com a voz carregada de resignação, começou a narrar os acontecimentos:

“Eu estava apenas trabalhando, como faço todos os dias. Então um amigo me ligou e me disse que eu precisava segurar uma mercadoria para ele. Ele disse que era Pedra, então eu pensei que fosse algum tipo de droga. Porra, eu já fiz isso antes, eu tô acostumado.”

O Lobo:
“E quanto ele disse que você ganharia?”

Joachim:
“100 mil reais. Era irrecusável.”

O Lobo:
“Alguma vez ele já pagou tanto? Você não foi capaz de pensar que não há carregamento de droga em que quem a guarda receba 100 mil reais? Já pensou que a sua fatia é a menor em uma operação dessas?”

Com um tom de confissão, Joachim prosseguiu:

“Eu precisava do dinheiro. Eu não pensei direito…”

O Lobo:
“Não pensou, não é? Mas me conte, Joachim. O que tinha naquela caixa…”

“Era uma estátua. Uma bela estátua. Ela tinha a forma de um anjo, com as mãos cobrindo os olhos. Eu não pude dar uma boa olhada nela, eu me assustei. Eu vi aquela estátua mais cedo no jornal e ela havia sido roubada. Estava avaliada em dois milhões de reais.”

O Lobo:
“E então? O que você fez?”

“Ora, eu chamei o Theo pra me ajudar a pensar naquilo. Ele é a pessoa mais inteligente que eu conheço, mesmo que ele talvez não saiba disso.”

O Lobo:
“Tá faltando algo, Joachim. O que houve com aquele homem que trouxe o caminhão com as caixas?”

Joachim relatou:

“O Beto? Bom, ele disse que havia visto a estátua antes de trazer pra mim. Então ele estava parecendo doente, com os olhos ardendo e tossindo. Eu disse para que ele bebesse algo e então ele sumiu. Alguns minutos depois, eu o vi bem na minha sala de estar. Mas ele estava todo em pedra, como uma estátua também. Eu tentei apenas não pensar naquilo, era coisa demais pra mim. Eu não sei quem armou essa pegadinha para mim, mas não vai funcionar.”

A raiva se fez presente na voz de O Lobo:

“Você não tem cérebro seu merda? É óbvio que não foi uma piada. ELE ESTÁ MORTO TAMBÉM. SEU AMIGO VIROU PEDRA POR SUA CAUSA. E A ESPOSA GRÁVIDA DELE? O QUE VOCÊ VAI FAZER A RESPEITO DISSO, JOACHIM?”

Joachim, em desespero, exclamou:

“O QUE EU PODIA FAZER? EU NÃO SABIA QUE ISSO ACONTECERIA.”

O Lobo:
“Me diga, Joachim. O que houve após isso?”

“Eu nem tive tempo de pensar sobre. Logo que eu buscava o que fazer, aquela porra de estátua não tava mais no caminhão. Ela estava do outro lado da Rua. Eu não sei como aquilo se moveu, mas eu comecei a desconfiar de algo místico. Talvez algum ritual, sei lá.”

O Lobo:
“Prossiga…”

Joachim continuou:

“Eu e Theo a levamos pra dentro. Mas logo ouvimos gritos de uma mulher pedindo socorro. Nós todos fomos ajudar e tivemos que dar uma surra em um Uber filho da puta.

A policia quase checou meu bar, eles iam achar a estátua e eu ia ser preso. Pra minha sorte a moça me ajudou e evitou isso. Dra.Laura o nome dela. Ela ficou grata pela nossa ajuda.”

O Lobo:
“Você se sente feliz pela boa ação? Você é mesmo patético, Joachim.”

“E como você sabe o que eu sinto?” indagou Joachim.

O Lobo:
“Apenas prossiga com a história…”

Joachim retomou:

“Bom, assim que nós terminamos de ajudar ela, Theo levou Lara para casa e Mikael foi embora também.

Eu peguei o caminhão e dirigi até uma igreja. Eu precisava rezar, precisava pensar um pouco.”

O Lobo, com ironia, comentou:

“Então ao primeiro encontro com o sobrenatural, você procura Deus? Ora ora, de tantas divindades estudadas por ti, você escolhe justo ele?”

Joachim respondeu:

“Naquele momento parecia o certo a se fazer…

Bom, eu me ajoelhei no altar e rezei com mais fé do que nunca. E eu vi uma moça, uma moça bonita, que parecia saber de tudo que aconteceu. Eu não sei quem ela era, e mal lembro de seu rosto, mas aquele olhar ainda me da calafrios…”

O Lobo:
“Hmmm, eu me lembro dela.”

Perturbado, Joachim questionou:

“Como se lembra? Quem é ela? Como você sabe de quem eu estou falando?”

Com tom enigmático, O Lobo concluiu:

“Eu preciso ir agora. Nos vemos em breve, Joachim. Muito em breve…”

KAPITEL 3

Es ist nicht alles Gold, was glänzt

Datas: 01 e 02 de Novembro de 2019

Joachim deixou para trás o modesto hotel onde passou a noite. Sem demonstrar dor ou tristeza, ele caminhava lentamente pelas ruas, como se cada passo ajudasse a compor um quadro de evidências que o ajudasse a entender os mistérios que o cercavam. Seu destino era o Bar Berlim, onde talvez encontrasse respostas ou, ao menos, um breve alívio.

Ao chegar ao Bar Berlim, Joachim dirigiu-se diretamente ao balcão. Sentou-se e, com um gesto quase automático, serviu-se de uma dose dupla de seu melhor amigo: um Dreher Conhaque, cujo conteúdo já se esgotava. O primeiro gole serviu de ponte para o reencontro com o passado, enquanto ele se preparava para enfrentar as lembranças que insistiam em assombrá-lo.

Logo após terminar o trago, um homem se posicionou atrás do balcão. Ele enxugava um copo e, com o mesmo conhaque em mãos, apoiou os cotovelos no balcão. Seus olhos fixaram-se em Joachim e, com a voz carregada de dor e acusação, iniciou um diálogo que feriria o velho lobo de muitas maneiras.

O Lobo:
— E então… Como está? Como é pra você ver a menina morrer? Você sabe que foi culpa sua, não é? Se você tivesse ido atrás…

Joachim (interrompendo, com firmeza):
— CALE-SE. Eu sei que podia ter ido atrás dela, mas, na hora, parecia o correto. Ela queria estar sozinha; ela disse que precisava estar sozinha.

O Lobo:
— Um suicida não quer sua ajuda, ele quer morrer. Isso o torna um suicida. Correto?

Joachim:
— Errado. Um suicida quer ajuda, só não sabe como pedir.

O Lobo:
— Pois então… Percebe agora, Joachim? Ela apenas não sabia como lhe pedir ajuda.

Joachim:
— Eu fui atrás dela, porém… já era tarde.
(Ele faz uma breve pausa, deixando a tensão se instalar.)
— Você me falou sobre uma mulher, aquela na igreja. O que sabe sobre ela?

O Lobo:
— Ora, o mesmo que você. Ela é uma santa, e você esteve com ela na noite anterior. Aliás, tenho um pressentimento de que você irá vê-la mais algumas vezes.


A atmosfera do Bar Berlim parecia condensar as dores e os segredos de uma época marcada por escolhas irreversíveis e encontros que desafiavam a lógica. Enquanto o diálogo se dissipava no ar carregado de culpa e presságios, a noite continuava, deixando no ar a promessa inquieta de que o destino de Joachim estava longe de se encerrar.