Introdução

Aiyé é um mundo de reinos, cidades-templo, repúblicas, arquipélagos mercantes, rotas de caravanas e pólis marítimas. Deuses realmente respondem, a memória possui força e decisões religiosas podem alterar leis, guerras, colheitas e relações entre nações. Ainda assim, a maior parte das pessoas vive preocupada com coisas comuns: alimento, família, trabalho, reputação, impostos, segurança e o próximo período de chuvas.

Não existe uma única explicação aceita para o funcionamento do mundo. Sacerdotes, magos, filósofos, governantes e pessoas comuns conhecem os mesmos fenômenos, mas discordam profundamente sobre suas causas. Em Aiyé, acreditar em algo não significa possuir toda a verdade.


Aiyé, Òrun E a Separação

Para compreender o mundo, primeiro é preciso conhecer a diferença entre Aiyé e Òrun.

  • Aiyé é o mundo físico, onde cada pessoa possui corpo, nome, memória e vontade próprios.
  • Òrun é descrito como uma existência anterior ou exterior a essas divisões, um lugar espiritual no qual as fronteiras entre as coisas são menos seguras e identificáveis.

Segundo o Primeiro Ìtàn, Aiyé surgiu por meio da Separação: o momento em que aquilo que era indistinto passou a possuir diferença, limite e identidade. A maioria das tradições associa esse acontecimento à forma atual do mundo. A contagem universal dos anos começa nesse grande acontecimento.

Existem lugares nos quais Aiyé parece mais próximo de Òrun. São chamados de lugares finos, cicatrizes, feridas ou limiares, dependendo da cultura.Alguns são apenas locais sagrados; outros …

O Mundo Conhecido

O mundo conhecido possui duas grandes massas de terra mapeadas. A oeste está Ìyàpa, um vasto arquipélago que teria formado o continente de Ilẹ̀, mas pelo surgimento de um Nascido novo, teria se fraturado. Suas ilhas reúnem savanas férteis, planícies fluviais, estepes semiáridas, montanhas, manguezais, costas comerciais.

A leste está Olódùmarè, um continente mais inteiro, formado por costas mediterrâneas, ilhas, planaltos frios, campos de cevada, olivais, vinhas, portos profundos e regiões de clima mais seco. Duas outras massas de terra aparecem em relatos de navegadores, mas uma é pouco explorada e a outra permanece quase inteiramente no campo dos rumores.

Entre os grandes lugares conhecidos estão Ọ̀kè Ẹ̀jẹ̀, a Montanha de Sangue, o pico mais alto do mundo; o Odò Ìyè, o Rio de Vida, que nasce em suas geleiras e sustenta Ilunji; o Odò Aláìparí, o Rio Sem Fim, que se espalha pelos brejos de Krysia sem alcançar o mar; e Aṣálẹ̀, o grande deserto atravessado por povos nômades que não reconhecem plenamente a autoridade de nenhum reino.

Povos E Culturas

As fronteiras políticas de Aiyé não correspondem perfeitamente às fronteiras culturais. Uma pessoa pode pertencer a uma cultura espalhada por vários Estados, viver como estrangeira em sua própria região ou adotar uma identidade por escolha.

Os Ará Ìlẹ̀, o Povo da Terra, vivem principalmente nas planícies férteis de Tessenor, Karas e Gẹ̀lẹ̀dẹ́. Suas sociedades valorizam linhagem, mercados, reis ou conselhos locais, ancestralidade, agricultura e oríkì. Comunidades Ará Ìlẹ̀ também existem fora desses territórios, especialmente ao longo de rios e rotas comerciais.

Os Ọmọ Òkè, os Filhos da Montanha, predominam em Ilunji e Dòkun. Sua cultura nasceu da relação entre o planalto, a estepe e os movimentos sazonais de pessoas e rebanhos. Ilunji enfatiza permanência, arquivo e montanha; Dòkun enfatiza marcha, forja e serviço militar. Povos nômades próximos a Aṣálẹ̀ compartilham parte dessa herança, mas preservam sua independência.

Os Kýklos são o povo marítimo de Krysia e Egeia, conhecido por suas ilhas, portos, casas mercantes e comunidades espalhadas por diferentes costas, organizam-se em pólis rivais, unidas por teatro, festivais ou defesa naval. Os Oì Siopítes, o Povo do Silêncio, formam a população de Akrís e aqueles que por opção recusam que qualquer culto ou religião do mundo exerça domínio sobre assuntos mortais.

Antigos E Nascidos

Todos em Aiyé conhecem a diferença entre deuses Antigos e deuses Nascidos.

Os Antigos existiam antes dos mortais e não dependem de templos, histórias ou oferendas para continuar existindo. Eles são tratados como fundamentos do mundo, imensos demais para serem compreendidos como simples reis celestes.

Os Nascidos foram mortais, segundo a maioria das tradições. Reis, curandeiras, crianças, ladrões, conselheiras e guerreiros podem ter sido lembrados com força suficiente para que seus nomes continuassem agindo depois da morte. Por isso, os Nascidos dependem da memória, das histórias e do louvor. Um Nascido esquecido enfraquece, embora ninguém saiba com certeza o que acontece quando seu nome desaparece completamente.

  • Ọdara é a Antiga da permanência, da terra, do corpo, da ancestralidade e da continuidade.
  • Kessu é o Antigo do movimento, dos ventos, rios, viagens, migrações, comércio e guerra enquanto deslocamento.
  • Amuka é a Antiga da conclusão: morte, limite, saciedade, maturidade, encerramento de disputas e descanso após o luto.

Entre os Nascidos mais conhecidos está Danladi, o antigo rei-guerreiro-poeta associado à memória, à glória e ao direito de não desaparecer. Amara das Mil Portas representa cura, parto, cuidado e gratidão. Tefo, o Ladrão Perdoado, protege estradas, limiares, mensagens e escolhas nas quais lei e justiça entram em conflito. Sefi, que disse a verdade diante de um rei, é invocada por escribas, juízes, estudantes e testemunhas. Wonu, o Menino que Não Cresceu, representa a infância interrompida, as promessas quebradas e o luto por futuros que nunca aconteceram.

Oríkì, Memória E Louvor

Oríkì é nome, louvor, genealogia, história e memória colocados em palavras. Em Aiyé, ele não é apenas poesia. “Cantar” alguém ajuda a posicionar essa pessoa no mundo, preservar sua reputação e manter sua presença entre os vivos. Um nome repetido por gerações pode adquirir peso religioso.

Entre os Ará Ìlẹ̀, o oríkì aparece em famílias, funerais, coroações, guerras e mercados. Em Dòkun, nomes de guerreiros são preservados em cantos de campanha. Em Egeia, uma força semelhante existe no kleos, a glória pública construída por teatro, monumentos e poesia. Akrís considera essas práticas perigosas e controla o louvor individual, pois acredita que toda exaltação pode começar a construir um futuro senhor.

Por causa disso, bardos, genealogistas, dramaturgos e guardiões de arquivos possuem poder político real. Uma história pode legitimar uma coroa, provocar uma guerra, destruir uma família ou aproximar um mortal da divindade.

Magia E Manifestações Divinas

A magia existe e pode ser observada, estudada ou praticada, mas não é compreendida da mesma maneira em todas as regiões. Templos realizam ritos, bênçãos, curas, adivinhações e proteções. Os Nascidos podem aparecer em sonhos, enviar sinais, conceder poderes ou incorporar em devotos. Os Antigos raramente se manifestam como pessoas; sua presença costuma ser percebida através da terra, do clima, do movimento ou do encerramento inesperado de alguma coisa.

Akrís possui as escolas arcanas mais famosas do mundo conhecido. Seus estudiosos tratam magia como técnica mortal sujeita a registro, auditoria e responsabilidade. Em outras regiões, práticas mágicas podem estar ligadas a sacerdócios, linhagens, ofícios, arquivos, cantos ou tradições locais.

Usar magia não torna alguém automaticamente sacerdote, escolhido ou autoridade. A relação entre poder mágico, consentimento e responsabilidade é uma das grandes discussões políticas de Aiyé enquanto cenário.

A Fome Quebrada

É conhecimento público que algo relacionado a Amuka não funciona como deveria. Esse fenômeno recebe nomes como Fome Quebrada, Função Quebrada ou simplesmente a Fome.

Seus efeitos vão além da falta de comida. Existem pessoas que comem sem jamais se sentir satisfeitas, colheitas que crescem além do ponto e apodrecem, feridos que demoram demais para morrer, lutos que não encontram descanso e conflitos que continuam mesmo depois de sua causa original ter sido esquecida. Alguns efeitos parecem positivos no início: criatividade inesgotável, coragem sobrenatural, fertilidade abundante ou paixões que nunca enfraquecem. O problema surge quando essas coisas demonstram não possuir limite.

Ninguém concorda sobre a causa. Parte dos sacerdotes afirma que Amuka foi ferida. Outros culpam a desobediência dos mortais, o crescimento dos Nascidos ou a arrogância dos governos. Alguns acusam Danladi, enquanto seus devotos consideram essa acusação propaganda religiosa. A única certeza é que a crise está se espalhando e já deixou de ser um problema exclusivo dos templos.

A Guerra Da Fome

A Guerra da Fome começou em Tessenor, mas suas consequências atingem todo o mundo conhecido. O conflito divide a coroa, que passou a apoiar Danladi, e o sacerdócio de Amuka, que exige a restauração da antiga ordem religiosa. Aldeias, famílias e linhagens foram separadas por crença, sobrevivência e acesso a alimento.

O Lago Ìrànti está no centro simbólico do conflito. A tradição o considera uma grande cicatriz da Separação, e diferentes facções acreditam que compreendê-lo ou controlá-lo pode ajudar a resolver a crise. Peregrinos, soldados, sacerdotes, estudiosos e vigias de Tefo disputam as estradas próximas ao lago.

A guerra também é alimentada por comércio. Gẹ̀lẹ̀dẹ́ envia cereais e sacerdotes. Karas vende alimento, armas, transporte e informação para diversos lados. Dòkun enviou tropas em nome de Danladi. Refugiados atravessam fronteiras e portos, enquanto outras nações discutem até onde devem interferir.

Tessenor

Tessenor é uma monarquia de linhagens situada nas férteis planícies de Ìyàpa. Antes da guerra, era uma das maiores potências agrícolas e religiosas da região. Atualmente, suas cidades, aldeias e famílias estão divididas entre a coroa ligada a Danladi e o sacerdócio de Amuka.

A capital, Adágun, continua sendo o principal centro da autoridade real, enquanto templos rurais e comunidades agrícolas preservam grande influência. Tessenor é uma terra de refugiados, soldados, bardos, sacerdotes, mercados interrompidos e campos ainda produtivos demais para serem abandonados.

Gẹ̀lẹ̀dẹ́

Gẹ̀lẹ̀dẹ́ é uma confederação de cidades-templo conhecida por seus campos férteis, celeiros, calendários agrícolas e sacerdócio ortodoxo. Para seu povo, liberdade não significa ausência de limites, mas a escolha consciente da medida correta.

O governo é compartilhado por Ọbas locais e por um poderoso conselho sacerdotal. Gẹ̀lẹ̀dẹ́ é uma das nações mais estáveis e bem alimentadas de Ìyàpa, mas sua estabilidade exige obediência ritual, respeito ao calendário e pouca tolerância para dúvidas públicas sobre Amuka ou Ọdara.

Karas

Karas é uma oligarquia mercantil de portos, canais, armazéns e mercados. Seu governo pertence às grandes Casas de Peso, que controlam contratos, tarifas, frotas, escoltas e redes de informação.

A nação afirma não escolher lados em guerras religiosas. Em vez disso, vende para quase todos e procura impedir que qualquer facção conquiste vantagem absoluta. Karas é indispensável para comércio, conservação de alimentos, transporte e fuga, mas é frequentemente acusada de transformar sofrimento em preço.

Dòkun

Dòkun ocupa as estepes próximas ao deserto e organiza-se como uma monarquia militar. Sua riqueza vem das forjas, dos animais de carga, dos diamantes, das rotas terrestres e de sua capacidade de proteger ou destruir caravanas.

A sociedade valoriza serviço, disciplina e mérito demonstrado, especialmente em combate. Danladi é venerado como General Supremo, e sua presença possui enorme importância dentro do exército. Dòkun participa diretamente da Guerra da Fome, o que aumenta seu prestígio militar, mas consome grão, ferro, animais e vidas.

Ilunji

Ilunji é um reino de altitude formado por cidades de pedra, minas, arquivos, terraços agrícolas e fortalezas de passagem. Controla parte das nascentes do Odò Ìyè.

Seu governo combina monarquia, Casas de Pedra, guardiões das nascentes e tribunais associados a Sefi. Ilunji acredita que certas verdades precisam ser preservadas e apresentadas no momento correto. Para seus críticos, essa prudência muitas vezes protege o governo tanto quanto protege o povo.

Akrís

Akrís é uma república austera situada no planalto frio de Olódùmarè. É governada por representantes eleitos e instituições de prestação de contas. Também abriga as escolas de magia mais avançadas do mundo conhecido.

Os Oì Siopítes não negam a existência dos deuses. Eles negam que existência divina conceda direito de governar mortais. Louvor individual, culto heroico e exaltação pública são rigidamente regulados, pois Akrís teme que a memória coletiva produza novos senhores. A nação atrai magos, estudiosos, ex-sacerdotes e dissidentes de outros países (os que conseguem chegar até lá vivos) .

Krysia

Krysia é uma potência marítima Kýklos formada por uma costa quente e um arquipélago de ilhas, portos, enseadas e canais. Seu governo, a Talassocracia das Três Marés, exige que decisões importantes sejam analisadas por representantes do comércio, das ilhas e das tradições ligadas ao brejo.

A cultura krysiana valoriza moderação, equilíbrio e recusa dos extremos. Esse sistema impede decisões fanáticas, mas também pode responder lentamente a emergências. A Maré Cinzenta, uma rede informal de capitãs, contrabandistas e corsárias, é oficialmente criminosa e publicamente conhecida por agir quando o governo demora demais.

Egeia

Egeia é uma liga de pólis espalhadas pela costa e pelas ilhas do noroeste de Ìyàpa.

Teatro, retórica, tribunais, jogos e assembleias dominam a vida pública. Para os egeios, nenhuma alegação deve governar a cidade sem ser demonstrada e debatida. Essa cultura dificulta a atuação de falsos profetas, mas favorece quem possui educação, patronos e habilidade para transformar verdade em espetáculo. Nísos representa principalmente o poder naval; Thálassa, o comércio e a diplomacia.

Comércio E Viagem

Nenhuma nação possui tudo que precisa. Gẹ̀lẹ̀dẹ́ fornece grandes quantidades de cereal. Tessenor possui terras férteis, rebanhos e pescado. Karas controla conservação, contratos e redistribuição. Ilunji fornece minério e controla passagens altas. Dòkun transforma minério em ferramentas e armas. Krysia domina rotas marítimas mercantes e produz cobre e púrpura. Egeia oferece prata, mármore, escolta naval e prestígio cultural. Akrís exporta materiais, instrumentos e conhecimento arcano.

Por isso, uma guerra local pode aumentar o preço da comida em outro continente. Uma estrada fechada em Ilunji prejudica as forjas de Dòkun. Um bloqueio egeio altera o comércio marítimo. Uma decisão sacerdotal em Gẹ̀lẹ̀dẹ́ pode determinar quais aldeias receberão cereal. Viajar significa atravessar fronteiras políticas, religiosas e comerciais, não apenas percorrer distância.

Calendário Da Separação

Todas as nações utilizam o Calendário da Separação para comércio, tratados, impostos, navegação e registros públicos. O ano possui 303 dias, divididos em dez meses de trinta dias: Raiz, Semente, Folha, Vento, Rio, Lança, Fruto, Celeiro, Cinza e Silêncio.

Entre os meses existem três Dias da Separação, que não pertencem a nenhum mês. São os únicos feriados realmente universais. Cada nação os interpreta de maneira própria, mas coroações, declarações de guerra, grandes viagens, casamentos políticos e juramentos irrevogáveis costumam ser evitados nesses dias.

Uma data pode ser registrada como “17 de Rio, 2000 AS”, sendo AS a abreviação de Após a Separação.

Criando Um Personagem De Aiyé

Ao criar um personagem, determine de onde ele vem, qual relação possui com os deuses e como entende a crise atual. Uma pessoa pode respeitar os Antigos sem obedecer a sacerdotes, servir a um Nascido sem apoiar seu culto oficial ou rejeitar a autoridade divina sem negar que milagres sejam reais.

Também é importante decidir como o personagem trata memória e reputação. Ele deseja que seu nome seja cantado, teme ser esquecido ou considera o louvor uma forma de prisão? Finalmente, determine como a Guerra da Fome afetou sua vida. Mesmo alguém nascido longe de Tessenor pode ter perdido parentes, enfrentado aumento de preços, recebido refugiados, servido em uma frota ou encontrado oportunidades criadas pela crise.

Em Aiyé, ninguém escolhe apenas entre bem e mal. As escolhas mais importantes costumam ser entre aquilo que deve permanecer, aquilo que precisa mudar e aquilo que já deveria ter terminado.

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